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"Vatileaks", o roubo de documentos do papa que sacudiu o Vaticano

Basílica de São Pedro, no Vaticano, é visto ao fundo de uma árvore de Natal no centro de Roma - Filippo Monteforte/AFP
Basílica de São Pedro, no Vaticano, é visto ao fundo de uma árvore de Natal no centro de Roma Imagem: Filippo Monteforte/AFP

Juan Lara

Na Cidade do Vaticano

24/12/2012 13h28

O escândalo "Vatileaks", suscitado após o roubo e vazamento de documentos reservados do papa, sacudiu o Vaticano e provocou a condenação a 18 meses de prisão do mordomo de Bento 16.

Após os casos de abusos sexuais contra menores por parte de clérigos que fizeram tremer as estruturas da Igreja em vários países nos últimos anos, o "Vatileaks" pôs a Cúria Romana no centro das atenções em 2012.

Embora no final de 2011 já houvesse rumores sobre Il Curvo (O Corvo) - nome dado à pessoa que roubou e divulgou os documentos que acabaram publicados no livro "Sua Santita", de Gianluigi Nuzzi -, foi a partir de janeiro deste que o escândalo explodiu.

Uma rede de televisão italiana publicou cartas enviadas a Bento XVI pelo núncio nos Estados Unidos e ex-secretário-geral do Governatorato da Cidade do Vaticano (Governo que administra este Estado), Carlo Maria Viganó, nas quais denunciava a "corrupção, prevaricação e má gestão" na administração vaticana.

Em uma dessas mensagens, Viganó denunciou que os banqueiros que integram o comitê de finanças e gestão do Governatorato e da Secretaria de Estado se preocupavam mais com seus interesses "que com os nossos" e que no final de 2009 perderam 2,5 milhões em uma operação financeira.

Em outra revelou que a Fábrica de São Pedro, que se encarrega da manutenção dos edifícios vaticanos, apresentou uma conta "astronômica", de 550 mil euros, pela construção do Portal de Belém na Praça de São Pedro em 2009.

Além disso, um jornal informou de um complô para assassinar Bento XVI antes do final deste ano e assinalou que o mesmo tinha sido falado pelo cardeal de Palermo, Paolo Romeo, durante uma viagem à China em novembro de 2011 e que o documento que o comprovava foi entregue no Vaticano pelo cardeal colombiano Dario Castrillón Hoyos.

Perante a polêmica suscitada, o porta-voz vaticano, Federico Lombardi, reconheceu que esse documento existia, mas que era evidente "que se trata de um disparate". O jesuíta denunciou então a existência de "uma espécie de Wikileaks para desacreditar a Igreja".

Diante dessa situação, Bento XVI criou uma comissão presidida pelo purpurado espanhol Julián Herranz para esclarecer os vazamentos e que interrogou dezenas de pessoas.

Foi apenas no dia 19 de maio que o escândalo explodiu em toda sua plenitude; com a chegada às livrarias de "Sua Santita", que recolhe mais de uma centena de documentos reservados enviados ao papa e a seu secretário, George Gänswein, e da Santa Sé que revelam tramas e intrigas no Vaticano.

No dia 23 de dezembro, o mordomo do pontífice, Paolo Gabriele, de 46 anos, foi detido depois que foram encontrados em seu domicílio milhares de documentos fotocopiados e muitos originais enviados ao papa, alguns dos quais estavam publicados no livro de Nuzzi.

Dois dias depois foi detido Claudio Sciarpelletti, de 48 anos, um técnico informático que trabalhava na Secretaria de Estado. Em sua mesa os agentes policiais encontraram documentos que supostamente haviam sido dados por Gabriele.

O juiz Piero Antonio Bonnet ordenou que Gabriele fosse julgado por roubo com agravantes e Sciarpelletti por encobrimento, e no dia 29 de setembro começou o julgamento mais midiático da história da Igreja Católica.

Foram realizadas penas quatro audiências e no dia 6 de outubro o tribunal vaticano presidido por Giuseppe Gadanha Torre condenou Gabriele a 18 meses de prisão. Sciarpelletti foi julgado posteriormente e, após duas audiências, foi condenado a dois meses de prisão, com a suspensão da pena.

Durante o julgamento, Gabriele disse que atuou "apenas por amor" à Igreja e ao papa e que não se via como um ladrão.

O mordomo afirmou que a situação de "desconcerto" que via no Vaticano e a corrupção na Igreja, foi o que lhe estimulou a agir, com o objetivo de publicar documentos que representassem um "choque" para a Igreja e esta voltasse ao bom caminho.

Paoletto, como é conhecido, disse que o papa é uma pessoa "manipulável" e que fazia perguntas que demonstravam que estava mal informado.

Gabriele cumpre pena em uma cela do Vaticano e não se descarta ainda que o papa lhe conceda o perdão.

Com estes julgamentos o Vaticano deu por concluído o Vatileaks, embora sua procuradoria mantenha aberta a investigação pela suposta execução de outros crimes, como danos à segurança do Estado e violação da privacidade do chefe do Estado (o papa).

O tribunal vaticano não aceitou a documentação recolhida pela comissão por considerar que foi criada segundo o Código de Direito Canônico e só responde perante o pontífice.

Ainda é um mistério se algum dia esses interrogatórios serão divulgados.