O cristão que acabou em uma lista de supostos jihadistas na Tailândia

Gaspar Ruiz-Canela.

Bangcoc, 2 jan (EFE).- A surpresa de Hagop Kassabi, um sírio-libanês cristão que vive na Tailândia há muitos anos, foi enorme quando um dia ele acordou e se viu incluído por engano em uma lista de supostos jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico (EI).

A polícia tailandesa consertou o erro em dois dias, mas Kassabi se queixa de não ter recebido nenhuma desculpa oficial e nem sequer tem certeza de que seu nome foi limpo totalmente da suspeita.

No início de dezembro, a esposa do sírio-libanês o acordou com uma imagem no celular da qual nunca esquecerá: sua foto em uma lista de suspeitos que as autoridades tailandesas queriam interrogar por possível ligação com o EI.

"As fotos foram publicadas na primeira página do jornal 'Daily News' e na internet. Eu estava em estado de choque, com medo. Era uma acusação muito séria que tinha se espalhado muito rápido", contou por telefone Kassabi, de 57 anos, à Agência Efe.

O sírio-libanês, que mora há cinco anos na Tailândia, entrou em contato com a polícia, que enviou dois agentes a sua residência em Sompoi, uma pequena aldeia na província de Chaiyaphum, no nordeste do país.

"No dia seguinte me chamaram à delegacia e fiquei lá o dia todo com minha família me perguntando o que estava acontecendo. Nunca me explicaram nada, tiraram a típica foto que tiram dos supostos criminosos, como nos filmes. Foi algo como 'você é culpado até que prove o contrário", explicou Kassabi, que tem três filhos com uma tailandesa com a qual se casou há dez anos.

"As autoridades falaram com minha esposa e lhe disseram que tudo tinha sido um mal-entendido e o Daily News corrigiu a notícia, mas não houve nenhuma desculpa", continuou o sírio-libanês, dono de uma empresa de exportação de alimentos.

O desagradável mal-entendido aconteceu por causa de um aviso dos serviços de inteligência russos, que advertiram sobre a presença na Tailândia de jihadistas do EI preparados para cometer atentados.

O alerta, divulgado na imprensa, dizia que os suspeitos entraram na Tailândia entre os dias 15 e 31 de outubro e que planejavam ataques em Pattaya e Phuket, dois destinos turísticos muito movimentados por visitantes russos.

Fontes da polícia local explicaram à Efe que Kassabi e outros três sírios foram interrogados após a descoberta de que havia irregularidades em seu histórico de vistos.

Kassabi esclareceu que há três anos permaneceu na Tailândia durante 20 dias com o visto vencido, o que ele atribui a um erro burocrático na gestão de sua permissão de residência.

Alguns dias depois do interrogatório de Kassabi e dos outros suspeitos sírios, a Interpol descartou a verossimilhança da ameaça, segundo o diretor da entidade na Tailândia, Apichart Suribunya.

A maior parte dos membros do EI está no Oriente Médio, no norte da África e Europa, e apenas algumas dezenas de membros procedem do Sudeste Asiático, de países de maioria muçulmana como Malásia e Indonésia.

No sul da Tailândia há um conflito no qual morreram mais de 6 mil pessoas desde que o movimento rebelde muçulmano retomou a luta armada em 2004 para pedir a independência ou maior autonomia.

Em agosto, 20 pessoas morreram em um atentado em Bangcoc - o maior da história na capital tailandesa. O ataque foi atribuído a militantes uigures, uma minoria muçulmana perseguida na província de Xinjian, no oeste da China.

As autoridades tailandesas relacionaram o ataque com a extradição forçada de cem uigures para a China alguns meses antes.

Diante do alerta que existe em torno dos ataques terroristas do EI, houve vários casos de pessoas que foram incluídas erroneamente em listas de suspeitos, o que deixa uma marca de forma quase indelével, apesar de que depois acabem sendo absolvidos.

"Eu sou inocente no papel, mas ainda há algumas pessoas que gostam de fazer brincadeiras. Agora sou o homem do Estado Islâmico em Sompoi", disse Kassabi, agora com bom-humor.

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