Assunção abriga cidade paralela dos refugiados pelas inundações

María Sanz.

Assunção, 4 jan (EFE).- A cidade de Assunção, onde mais de 100 mil pessoas tiveram que abandonar seus lares inundados após a cheia do rio Paraguai, vê agora nascer em seus espaços públicos uma espécie de cidade paralela formada pelas pequenas casas de madeira e chapas nas quais vivem os afetados pelas chuvas.

Obrigados pela crescida do rio, que alcança os 7,88 metros em sua passagem pela capital paraguaia, muitos moradores de Los Bañados, como são conhecidos os bairros ribeirinhos de Assunção, se instalaram em áreas mais altas da cidade, para as quais se mudaram com suas famílias, seus animais e alguns objetos domésticos.

É o caso dos moradores do bairro Ricardo Brugada, conhecido como La Chacarita, que trocaram as vielas de um dos bairros mais antigos de Assunção pelas praças em torno do Congresso Nacional, da Catedral e de El Cabido, vários metros mais acima, já no centro histórico da capital.

Os novos bairros funcionam como pequenas cidades autogestionadas, e contam com seus próprios mercados, bares, pizzarias e até piscinas desmontáveis graças às quais as crianças, em plenas férias de verão, suportam o calor.

À porta de sua casa , localizada ao pé de um monumento que lembra as façanhas mais importantes que levaram à independência do Paraguai, Guzmán Acosta contou à Agência Efe que viveu em La Chacarita desde que tem lembranças, e disse que a história de seu bairro foi sempre ligada às idas e vindas do rio.

"Já meus pais, e os pais dos meus pais, viviam assim, tendo que deslocar-se porque suas casas eram inundadas. As enchentes vinham a cada cinco ou dez anos, eles deixavam as casas, e depois descia o rio e estavam outra vez tranquilos", relatou.

No entanto, advertiu que nos últimos anos as inundações são "cada vez mais frequentes", até o ponto que em 2015 já foram registradas duas grandes inundações.

"Isto de ter inundações a cada seis meses é incomum. Eu acredito que é porque o ser humano está destruindo as árvores, e não deixa o planeta respirar. E a natureza está zangada", ponderou.

Acosta também aponta outros fatores, como a mudança climática e a abertura no final de novembro das comportas da gigantesca represa de Itaipu, sobre o Rio Paraná, como responsáveis pelo aumento dos níveis dos rios e seu posterior transbordamento.

Apesar das migrações forçadas fazerem parte do panorama cotidiano dos moradores de La Chacarita, Acosta se resiste a crer que seu bairro não possa encontrar uma solução às enchentes.

"É o que se fez na Holanda, por exemplo, que também são terras baixas e as cidades estavam todas inundadas. Mas conseguiram um sistema para que as casas não tivessem água e as pessoas pudessem viver", sugeriu.

Sua vizinha Nancy Cabaña, que reitera que criou sozinha seus seis filhos com o que ganha cuidando de carros estacionados no centro de Assunção, espera que o Estado execute uma esperada obra de infraestrutura que proteja os moradores de La Chacarita do transbordamento do rio e lhes permita conservar seus lares.

Um dos filhos de Cabaña, Víctor Palma, acredita, no entanto, que o Estado não quer proteger os moradores, mas despejá-los, uma vez que associa o bairro à delinquência, ao consumo e tráfico de drogas, e à prostituição.

"Se desalojarem La Chacarita e a transferirem a outro lugar, vão se repetir os mesmos problemas. Penso que a única solução é dividir o bairro entre a maioria de pessoas que somos honestas e trabalhamos, e separá-las dos poucos que são delinquentes, como aconteceu com algumas favelas do Brasil", opinou.

Em grupos, tomando tereré, chá de erva-mate com água fria, à porta de suas casas ou escutando música em alto-falantes para festejar o novo ano, os moradores de La Chacarita evocam exemplos de outras cidades e teorizam sobre os futuros possíveis de seu bairro, ao qual esperam retornar em breve, assim que as águas encontrarem de novo seu leito.

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