O "lado B" dos vídeos do Estado Islâmico

Susana Samhan.

Beirute, 6 jan (EFE).- Treinamentos ao ar livre, poda de árvores em Al Raqqa ou uma aula de Corão para menores fazem parte da ideia de "califado" que o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) recria em seus vídeos, que não só mostram assassinatos brutais, mas também uma realidade inventada para captar novos adeptos.

Nas imagens que divulgam na internet, os jihadistas vão além de expandir o terror e apresentam também um "mundo idílico" artificial com paisagens ao ar livre, combatentes que dividem as refeições e mulheres que passeiam com seus filhos por seus domínios.

Para o editor-chefe do Centro de Terrorismo e Insurgência IHS Jane, Matthew Henman, há dois temas essenciais nos vídeos, que são dirigidos a possíveis novos recrutas: "Primeiro, que foi criado um califado ideal, onde o verdadeiro islã é promovido, praticado e protegido".

"Segundo, que você pode se unir à luta para defender e expandir esse califado contra uma cada vez maior variedade de inimigos", disse Henman à Agência Efe.

O EI manipula as imagens como se fossem um documentário onde mostra sua visão distorcida do que realmente ocorre.

Henman destacou que "a vida nas áreas sob o controle da organização aparece representada como muito idílica, ou pelo menos útil, enquanto as sequências de luta oferecem reminiscências dos filmes de ação ou videogames".

Por sua vez, a especialista do Centro Carnegie do Oriente Médio, Dalia Ghanem Yazbeck, disse à Efe que os radicais dispõem de departamentos de imprensa com missões diferentes, como Al Furqan, Al I'tisam e Al-Hayat.

Este último, por exemplo, é destinado fundamentalmente ao público ocidental e edita a "Dabiq", revista em inglês do grupo terrorista.

Através do material audiovisual, os extremistas "transferem a imagem de uma sociedade islâmica pura e perfeita, vendem que nela há justiça social, igualdade e que não há racismo", detalhou Yazbeck.

Este especialista considera que o EI brinca com a aspiração de se viver em uma comunidade perfeita.

"É como disse Abu Bakr al-Baghdadi (líder do EI) em seu primeiro discurso na 'Dabiq', quando falou algo assim como 'venham como vocês são e nós os aceitaremos", disse Dalia.

Na opinião desta especialista, o EI trabalha para anular o indivíduo e substituí-lo por um "nós" para articular um sentimento de fraternidade que pode atrair ocidentais.

Nessa linha, os terroristas divulgavam recentemente um vídeo de um hospital em seu autoproclamado califado na Síria e no Iraque, com as últimas tecnologias e no qual podia ser visto um médico de pele e olhos claros falando com sotaque australiano.

"O grupo tem uma capacidade substancial para produzir propaganda dirigida a diferentes públicos e em várias línguas além do árabe, como inglês, francês, russo, turco", explicou Henman.

Diante da fantasia de "um mundo perfeito", os vídeos têm seu contraponto no lado violento no qual aparecem combates, atentados e assassinatos.

Dalia afirmou que, neste caso, "a mensagem é 'isto é o que te acontecerá se não estiver conosco', além de inflamar os partidários do EI".

Fato é que o califado bucólico que os radicais pretendem vender, no final, não deixa de ser um artifício.

De fato, a especialista do Carnegie prevê que cada vez haverá mais deserções dentro da organização "porque o que acontece realmente não se ajusta a sua propaganda", já que nos domínios dos extremistas a desigualdade e a corrupção são bastante comuns.

Prova disso é que, segundo os dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos, o EI assassinou 420 de seus membros por supostamente espionarem para outros países, colaborarem para a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos ou por tentarem fugir para fora das áreas controladas pela organização nos últimos 18 meses.

Dalia acredita que o próprio EI acabará "apodrecendo" por dentro, porque "é o que costuma ocorrer com organizações tão fechadas que não dão liberdade a pontos de vista diferentes internamente".

"Com o tempo, elas desenvolvem uma paranoia porque estão obcecadas com a corrupção que possa vir do exterior e começam a ser extremamente violentas com sua própria população", ponderou.

À espera de que este momento chegue, Henman considera que é possível combater a propaganda do EI com ações técnicas para resistir a suas publicações e um esforço mais intenso de cooperação internacional global para abalar seus princípios ideológicos.

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