Após 5 anos, tensão política alimenta nova revolução na Tunísia

Javier Martín

Sidi Bouzid (Tunísia), 13 jan (EFE).- A Tunísia celebra na quinta-feira o 5° aniversário da queda da ditadura durante sua enésima crise, com as forças políticas em tensão e os movimentos sociais descontentes com o rumo tomado pela revolução após um ano de estagnação econômica e violência jihadista.

Uma fratura política que se agravou neste mesmo fim de semana depois que 27 deputados abandonaram o partido laico Nidaa Tounes, até então majoritário, e facilitaram assim o controle da câmara pelos islamitas de Al-Nahda.

A maior parte deles se declarou independente pouco antes que a formação que em 2012 salvou a revolução engrandeceu Hafiz Essebi, filho do presidente do país e fundador de Nida Tunis, Beji Caid Essebsi.

Além de considerar que o partido renunciou ao espírito de conciliação com o qual nasceu, os dissidentes acusam Hafiz de se aliar com o poder econômico e com membros do antigo regime para suceder seu progenitor, de 88 anos, em ambos os cargos.

"Existe um verdadeiro perigo de a Tunísia se transformar em uma república hereditária, igual como tentou fazer (o derrubado presidente egípcio, Hosni) Mubarak com seu filho Gamal", explicou à Agência Efe um membro da facção dissidente.

"Não podemos aceitar isso, como não podemos aceitar a aliança com os religiosos de Al-Nahda. Nidaa Tounes nasceu para defender um estado laico no qual todos possam caber, em segurança e sem menosprezo das liberdades", acrescentou.

À frente deles se colocou o ex-secretário geral do Nidaa Tounis e um de seus principais ideólogos, Moshsen Marzouk, que anunciou que em março apresentará sua própria formação, sustentada no laicismo.

Marzouk, que no fim de semana passado conseguiu reunir mais de 3 mil pessoas em seu primeiro comício, se queixou do peso que ganhou o Al-Nahda no governo depois da remodelação feita no início deste ano pelo primeiro-ministro, Habib Essid.

Os islamitas passaram de um a três ministros e voltaram a tomar o controle do Ministério do Interior, que já controlaram em tempos do tripartite quando, segundo especialistas, começaram os problemas de infiltração jihadista e carência de profissionalismo que agora é latente.

A lacuna também é cada vez maior entre a nova classe política e os movimentos sociais, que se queixam que meia década depois da revolta mudaram as caras do poder, mas não o sistema no qual se sustentou a ditadura.

"Após cinco anos de uma revolução que começou aqui e que foi seguida por outras regiões mais pobres, nada mudou nem em nível social e nem econômico. A corrupção continua", explicou à Agência Efe Jamal Sagruni, um dos jovens que se uniu à revolta.

Atual secretário-geral da associação de diplomados desempregados de Sidi Bouzid, o jovem carrega a responsabilidade sobre o atual governo, o primeiro posterior à transição, ao qual acusa de carecer de um programa econômico inclusivo.

"A única coisa que mudou é que temos a liberdade para nos expressar, mas o que vamos fazer com a liberdade de expressão sem trabalho nem dignidade e nem direitos?", afirma.

"O governo da coalizão não é um governo popular, só protege os interesse do capitalismo. É possível outra revolução pela má situação econômica e social e a crise no setor da segurança", assinala.

A possibilidade de uma segunda revolução também foi dita por Hayet Khaled, advogada e presidente da associação de apoio à mulher rural em Sidi Bouziz.

"Considero que não finalizamos nossa revolução porque os grandes problemas se agravaram. Os formados desempregados e os jovens que fizeram a Revolução continuam descontentes e organizando ainda centenas de greves junto os sindicalistas e universitários", afirma.

Ambos concordam que o jihadismo, que neste ano tirou a vida de 72 pessoas -60 deles turistas estrangeiros- e colocou em xeque as frágeis forças de Segurança, se alimenta da pobreza, mas também do aborrecimento.

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