A intervenção secreta soviética que salvou o pai de Bashar al Assad

Ignacio Ortega.

Moscou, 15 jan (EFE).- O Kremlin evitou em 1983 a queda de Hafez al-Assad, pai atual líder da Síria, ao deslocar secretamente tropas e armamentos a Damasco para prevenir uma guerra com Israel, segundo relatou à Agência Efe um dos participantes dessa operação.

"Nossa presença adiou a guerra e prolongou a paz durante 28 anos. Quando estávamos lá, havia três exércitos do outro lado: Israel, EUA e Otan. E evitamos a terceira guerra mundial", afirmou Valeri Anisimov, presidente da união de veteranos russos que atuaram na Síria.

Da mesma forma que Bashar al Assad fez ao convencer o presidente da Rússia, Vladimir Putin, a intervir no país árabe, seu pai recorreu à União Soviética depois que a aviação israelense destruiu em 1982 quase todas as suas baterias antiaéreas.

Com sírios e israelenses envolvidos na guerra civil no Líbano, Moscou decidiu embarcar milhares de soldados à paisana no porto de Nikolayev, na atual Ucrânia, rumo à base soviética de Tartus.

"Nesse momento foi parar em minhas mãos um jornal local. Havia uma notícia que dizia o seguinte: um grupo de estudantes ganhadores de competições socialistas partem em um cruzeiro pelo Mediterrâneo", lembrou, aos risos.

Os recrutas tinham que parecer turistas, por isso receberam roupas à paisana, gravatas, bonés e malas esportivas.

Era 7 de janeiro de 1983 quando o cruzeiro "Ucrânia" partiu sem que Anisimov, que então tinha apenas 19 anos, soubesse que a Síria, para onde se dirigiram também outros cinco navios com armamento pesado, era seu destino.

"Só ao chegar em Tartus nos comunicaram que serviríamos na Síria. Nos deram armas e uniformes sírios sem distintivo (como os dos soldados russos que atuaram na Crimeia em 2014). Em 15 de janeiro assumimos nossos postos de combate perto de Damasco. Sabíamos que éramos invencíveis. A União Soviética era uma grande potência", afirmou.

Não era para menos. Os sistemas antiaéreos com mísseis S-200 que desembarcaram na Síria "não tinham análogos no mundo", com um alcance de 250 quilômetros que os transformava em "quase infalíveis".

"Cobríamos Turquia, Líbano, Jordânia e Israel até o Mediterrâneo. A partir de então, todos os aviões inimigos, especialmente os israelenses, que violavam constantemente o espaço aéreo sírio, retornaram a suas bases", ressaltou.

Durante um ano e meio de missão, os soviéticos estiveram várias vezes à beira da explosão de um conflito em grande escala, mas Assad pai nunca os autorizou a derrubar aviões israelenses por temor de uma guerra.

"Nossa missão era defender o Estado sírio do inimigo, e isso é o que fizemos. Então, este era o único passo correto, já que nesse momento deveria ter começado a guerra que explodiu atualmente. Nós prevenimos então um conflito e garantimos a paz", destacou.

É por isso que Anisimov se dirigiu "com justiça" ao Kremlin para que reconheça esses soldados como veteranos de guerra, apesar de todos os documentos que o credenciam terem desaparecido dos arquivos após a queda da URSS.

"Há quase 30 anos cumprimos a mesma missão que cumprem agora os modernos S-400 na Síria. Exatamente a mesma coisa. Não necessitamos de compensações financeiras, apenas o reconhecimento moral, já que um soldado deve ser reconhecido por seu governo", frisou.

Um projeto de lei visando este reconhecimento foi enviado ao parlamento russo, mas acabou rejeitado várias vezes por diferentes motivos, embora o veterano moscovita de 52 anos não perca a esperança.

"Nosso presidente (Putin) disse que reconhecerá como participantes de ações militares os soldados atualmente em ação na Síria. Então nós também devemos ser reconhecidos. Eles devem reconhecer nossos méritos militares", afirmou.

Anisimov, que dirige uma organização que reúne 1,5 mil veteranos do total de 8 mil que serviram na Síria, guarda uma grata lembrança do país árabe e conserva a boina verde e várias fotos.

"Ainda temos muitos amigos na Síria. Seguimos em contato por e-mail. Nos dói muito o que acontece. Não podemos ser indiferentes", destacou o veterano, que lembra de a população local dar comida e bebida de graça em meio ao forte calor da região.

De fato, alguns filhos de antigos veteranos dessa época servem agora na base aérea de Latakia, de onde os aviões russos atacam as posições inimigas, assim como outro destacamento de pilotos soviéticos fez em 1973 na Guerra do Yom Kippur, proeza que também não foi documentada oficialmente.

"Não sou um dirigente político (...), mas a operação (na Síria) tinha que ter sido iniciada em 2011. Se assim fosse, a Europa não estaria cheia de refugiados (...), não haveria tantas cidades destruídas e não teriam morrido tantos sírios. Desperdiçamos a chance e perdemos tempo", alegou.

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