Redes sociais aumentam tensão racial na África do Sul

Marcel Gascón.

Johanesburgo, 17 jan (EFE).- Vários incidentes racistas ocorridos nas redes sociais ou amplificados através delas exacerbaram no final do ano passado e no início deste a tensão racial na África do Sul, onde as mentalidades herdeiras do apartheid, da desigualdade e do ressentimento envenenam a relação entre brancos e negros.

No final de ano, uma corretora imobiliária da costa leste publicou no Facebook uma foto da praia de Durban lotada de banhistas negros acompanhada da mensagem: "macacos sem educação, não sabem mais o que sujar".

Em outro texto similar, na mesma rede social, um popular personal trainer ameaçava os banhistas que tinham deixado a praia cheia de lixo a "voltar de onde vieram" com "seus 13 filhos" e os qualificava de "animais".

Quase 22 anos depois da queda do regime de segregação racial, estes comentários continuam sendo frequentes nas reuniões familiares e encontros de amigos de uma população branca que ganha seis vezes mais do que a negra, sobre a qual pesam séculos de marginalização e o fracasso do governo na educação e na economia.

As redes sociais, então, servem de propagador de conversas que, de outra forma, teriam morrido no âmbito privado e permitem às vítimas responder em alto e bom som, gerando consequências antes impensadas.

Tanto a corretora quanto o personal perderam seus empregos e patrocinadores depois da furiosa reação de milhares de sul-africanos no Twitter. Além disso, eles foram denunciados por vários grupos políticos e cidadãos.

O contrário também existe. Entre os indignados com as demonstrações de racismo havia um funcionário do governo da região de Gauteng, que pediu que os brancos fossem eliminados como foram os judeus por Hitler. Foi suspenso de emprego pela Administração pública.

Depois da tempestade no Twitter - da qual os casos mencionados acima são apenas o ponto de partida ou os mais midiáticos -, um jovem ator negro ficou gravemente ferido ao ser atropelado intencionalmente por um motorista branco que fugiu.

No começo de janeiro, uma mulher branca xingou um grupo de negros durante uma corrida de cavalos na Cidade do Cabo. Os insultados relataram o caso nas redes sociais e a mulher foi demitida da empresa para a qual acabava de ser contratada.

Gerou uma resposta parecida a notícia de que o proprietário branco de uma piscina pública na cidade de Modimolle mandou um adolescente negro de 15 anos sair da água "por respeito ao resto das pessoas".

Para muitos, a polarização do debate público facilitado nas redes sociais não precisa ser necessariamente algo negativo, já que expõe as percepções reais sobre as identidades étnicas e permite aos que sofrem os abusos denunciarem publicamente as ações.

Especialmente os membros da maioria negra, acostumados ao desprezo e a discriminação em ambientes profissionais e de lazer ainda dominados amplamente pela minoria branca.

"Eu mesma vivo incidentes de racismo diariamente, especialmente em lugares como restaurantes. Frequentemente, dizem para mim e para a minha família que não tem lugar, e em seguida permitem a entrada sem restrições de uma família branca", disse à Agência Efe a engenheira negra Unathi Hlalele, de 30 anos.

Ela comemora o fato de as redes sociais terem permitido responder a este tipo de injustiça, geralmente sutil, mas nem por isso menos dolorosa, e que de outra forma passariam despercebidas. Contudo, questiona se algumas punições não seriam excessivas.

"Tenho a impressão que às vezes o castigo vai além da ofensa e tornam as coisas maiores do que realmente são", comentou Unathi, que cita os casos nos quais as pessoas perderam seus empregos por conta de comentários na internet.

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