Carências sociais mancham década de ouro de Evo Morales na Bolívia

Lorena Cantó.

La Paz, 20 jan (EFE).- A década econômica dourada que a Bolívia viveu com Evo Morales caminha devagar no que diz respeito a avanços sociais, com um estado de direito minado pela crise da Justiça, os altos índices de violência machista e contra a infância, o trabalho infantil legalizado e a saúde deficiente.

Uma das principais promessas de Morales quando chegou ao poder foi a de melhorar a vida dos bolivianos mais desfavorecidos, os frágeis, os mais pobres em um país pobre, mas, embora tenha conseguido avanços importantes na erradicação da fome, outros indicadores do bem-estar social seguem em níveis mínimos.

A crítica é feita pelo defensor público Rolando Villena, que nos últimos anos aumentou a intensidade dos questionamentos a Morales e seu governo por considerar que o estado de direito e os direitos humanos sofreram um retrocesso no país andino.

A violência contra as mulheres e a infância é um dos assuntos dos quais o governo boliviano não pode se orgulhar.

A Bolívia é, segundo dados da ONU, o país latino-americano com maiores índices de violência de gênero, e embora este governo tenha aprovado uma lei a respeito e que fora adiada por anos, por enquanto os resultados são pífios.

Pelo menos 107 bolivianas, segundo a defensoria pública, foram assassinadas no ano passado, e 80% das mulheres sofreram algum tipo de violência que também se estende aos menores e que em muitos casos acontece dentro do próprio lar.

Com a nova lei, aumentaram as denúncias, mas ainda não se concretizou o esperado efeito dissuasório.

Este assunto se entrelaça com outro dos problemas mais graves da Bolívia, o de uma Justiça gravemente debilitada pela corrupção, a falta de meios e a mais absoluta falta de confiança por parte da população.

Reiterados escândalos, inclusive com gravações em vídeo, envolvem juízes e promotores, e o próprio governo tachou de "vergonha" tanto o Poder Judiciário como a lentidão dos processos, o que desemboca em prisões amontoadas nas quais a maior parte dos réus não tem sentença definitiva.

A ineficácia do sistema se reflete também no aumento dos linchamentos, nos quais as multidões fazem "justiça" com as próprias mãos alegando que atuam sob a justiça indígena originária, que embora esteja reconhecida na Constituição (2009) no mesmo nível que a Justiça comum, não ampara o castigo físico e menos ainda as execuções.

Morales também é alvo de críticas por alguns desmesurados investimentos em âmbitos sem repercussão direta no bem-estar da população. Entre esses projetos estão o lançamento de um satélite (US$ 300 milhões), a construção de um museu dedicado à "revolução" na cidade natal do presidente (US$ 6,7 milhões) e o empenho de Morales em oferecer seu país como sede de cúpulas dos mais diversos tipos, sem se preocupar com despesas.

Os abundantes recursos destinados a essas iniciativas contrastam com a precária situação dos hospitais públicos, onde as crianças com câncer se veem obrigadas a pagar seu tratamento com iniciativas como a venda de cartões natalinos pintados por elas mesmas.

Segundo relatório da ONG Save the Children divulgado em 2015, para cada mil nascidos na Bolívia, 39,1 não chegam a completar os cinco anos, e o índice de mortalidade materna é também o mais elevado da América do Sul, com uma mulher em risco de morte por cada 140 partos.

Além disso, o país não conta com tratamento para crianças hemofílicas, banco de córneas ou aceleradores lineais para tratar tumores, entre outras carências.

Sob o governo de Evo Morales, em 2014, também aconteceu a legalização do trabalho infantil, uma decisão que causou polêmica entre organizações de direitos humanos, mas que as crianças trabalhadoras, e mais ainda seus familiares, aplaudiram e que o próprio líder defende, por considerar que cria "consciência social".

Na Bolívia trabalham 850 mil menores, alguns em setores de especial dificuldade como a mineração e a agricultura.

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