Sanders tenta ser o Obama de 2016 e coloca favoritismo de Hillary em risco

Lucía Leal.

Washington, 26 jan (EFE).- Ele é um socialista de cabelos brancos desarrumados, de corpo franzino, mas com o objetivo claro de repetir a façanha de Barack Obama em 2008: Bernie Sanders tem chances de vencer as primárias democratas nos primeiros estados a votar e passou a tirar o sono da até então favorita Hillary Clinton.

Sanders, um senador independente de 74 anos que se define como "socialista democrático", passou os últimos meses como um segundo colocado que gerava entusiasmo nos democratas mais progressistas. Mas agora se coloca como um verdadeiro desafio para Hillary nos dois estados que abrem as primárias: Iowa e New Hampshire.

Como Obama em 2008, Sanders se apoia no idealismo e no desencanto com a política tradicional para superar a ex-secretária de Estado, que precisou partir para os ataques contra o adversário para evitar ser mais uma vez derrotada em uma disputa na qual é favorita.

Se o atual presidente baseou sua campanha na esperança de unir um país ideologicamente muito polarizado, Sanders foca em denunciar a crescente desigualdade, a erosão da classe média americana e a "cobiça e a negligência" dos grandes bancos de Wall Street.

Frequentemente, o senador por Vermont fica rouco ao subir o tom da voz para reiterar suas denúncias contra o "corrupto" sistema financeiro americano e quase sempre parece estar zangado. Mas isso, porém, não reduziu sua capacidade de atrair eleitores, especialmente entre os mais jovens, que lotam seus comícios de uma forma que Hillary jamais conseguiu.

Sanders agora está pisando nos calcanhares de Hillary nas pesquisas de Iowa, que abre as primárias no dia 1º de fevereiro. E tem uma considerável vantagem sobre a adversária em New Hampshire, o segundo estado a votar.

"A energia e o entusiasmo estão no nosso lado. Acredito que isso contribuirá para uma maior participação dos eleitores, e isso significa uma vitória (nas eleições gerais de novembro)", disse Sanders em recente entrevista à revista "Time".

Apesar da confiança do senador, a máquina do partido segue apoiando Hillary. Muitos analistas alertam que Sanders terá suas chances reduzidas caso não vença nos primeiros estados das primárias, um cálculo parecido com os elaborados pelos assessores de Obama durante a campanha presidencial de 2008.

Nas últimas semanas, Sanders tentou se mostrar como um candidato da mudança e da esperança. Seu lema de campanha, "A future to believe in" ("Um futuro no qual acreditar"), é parecido com o de Obama em 2008, "Change you can believe in" ("Uma mudança em que você pode acreditar").

Em sua última propaganda exibida em Iowa, imagens de camponeses, famílias e jovens se misturam com outras de Sanders, sem que nenhum locutor defenda as ideias do candidato. Ao fundo, o clássico "America" de Simon & Garfunkel.

Como contraste, os anúncios de Hillary insistem em afirmar que ela é a única candidata capaz de se sobressair em "todos os aspectos" da presidência, um claro ataque à pouca experiência de Sanders na política externa, e sua inclinação em concentrar a campanha em um único assunto, a desigualdade econômica.

Uma das fraquezas de Sanders é sua popularidade baixa entre latinos e afro-americanos, que seguem preferindo a ex-secretária de Estado. Para tentar corrigir o "problema", o senador tem passado cada vez mais tempo em Nevada, o primeiro estado com uma importante população hispânica a votar nas primárias.

Hillary também aborda o controle de armas para atrair eleitores de Sanders. Vermont, estado representado pelo Senador, conta com um grande número de proprietários de armas e o candidato votou contra algumas medidas para restringir o acesso a elas.

Como resposta, Sanders lembra que, ao contrário de Hillary, que arrecada fundos de empresas e multimilionários, ele só aceita pequenas contribuições de cidadãos e até agora conseguiu mais dinheiro desse jeito do que nenhum outro candidato na história: US$ 2,5 milhões em doações individuais.

O senador acredita que só assim estará livre dos grandes interesses financeiros e poderá aumentar os impostos cobrados de Wall Street, reformando um sistema eleitoral que atualmente permite que os candidatos recebam doações ilimitadas de empresas.

Para Hillary e outros democratas não está claro se Sanders será capaz de ampliar o alcance de sua mensagem, que até agora atrai, sobretudo, brancos de classe média e baixa.

Judeu, embora pouco religioso, e de raízes polonesas, Sanders nasceu no Brooklyn (Nova York) em uma família modesta. Após se formar na Universidade de Chicago, se mudou para Vermont. Foi durante oito anos prefeito da maior cidade do estado, Burlington, antes de permanecer por 16 anos na Câmara dos Representantes e de entrar no Senado em 2007.

Sua campanha começou sendo uma ferramenta para que Hillary desse guinadas à esquerda em temas como comércio e energia. Mas, à medida que as primárias se aproximam e uma vitória de Sanders já não é algo absolutamente impossível, muitos se perguntam: um socialista pode ser presidente dos EUA? EFE

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