Após sequestros da ditadura, Argentina luta agora contra tráfico de pessoas

Alberto Ortiz.

Buenos Aires, 27 jan (EFE).- A ausência de Florencia Penacchi, Marita Verón e María Cash arde na memória coletiva dos argentinos - elas são algumas das 3.231 mulheres desaparecidas já em tempos de democracia, um drama estreitamente ligado ao tráfico humano, segundo os autores de um relatório divulgado recentemente.

O documento "Buscas na democracia. Diagnóstico sobre a busca de pessoas entre 1990 e 2013" é um apavorante percurso estatístico que põe em contexto o drama dos desaparecimentos na Argentina, que afeta sobretudo adolescentes e jovens mulheres.

Elaborado pela Procuradoria de Tráfico e Exploração de Pessoas do Ministério Público Fiscal da Nação (PROTEX) e a ONG Ações Coordenadas Contra o Tráfico (ACCT), o relatório pretende jogar luz sobre um problema que tem dados muito confusos.

Celeste Perofino, coordenadora da ACCT, afirmou à Agência Efe que a alta porcentagem de desaparecidas, especialmente adolescentes, indica que a maioria destes casos está ligada ao tráfico humano com fins de exploração sexual, crime em que 99% das vítimas são mulheres.

Segundo o relatório, desde o retorno da democracia à Argentina, em 1983, a lista de desaparecidos chega a 6.040 pessoas, 3.231 são mulheres e 2.801 homens.

Por trás dos dados se escondem histórias como a de Sofia Herrera, que se perdeu entre os balanços de um parque quando tinha apenas três anos, e María Cash, raptada quando viajava de ônibus para o norte do país.

Embora o número de homens desaparecidos também seja elevado, a pirâmide de idade é muito mais uniforme, e não se observam picos na adolescência, algo que, segundo Perofino, complica a tarefa de definir a causa dos desaparecimentos masculinos.

A província mais afetada é a de Buenos Aires, a maior do país, onde 3.124 pessoas permanecem em paradeiro desconhecido - a proporção entre homens e mulheres é quase idêntica, seguida pela de Tucumán, com 1.453 desaparecimentos, 906 delas mulheres.

Florencia, de 25 anos, saiu de casa para buscar uma encomenda de comida e nunca voltou. A polícia conseguiu estabelecer um vínculo entre a boate que frequentava, o traficante que vendia drogas ocasionalmente a ela e uma quadrilha ligada ao tráfico humano, mas ela continua, após dez anos, em paradeiro desconhecido.

Algo parecido aconteceu com Marita Verón. Ela nunca chegou para uma consulta com o médico em 3 de abril de 2002. A investigação relacionou seu desaparecimento com redes de prostituição na Argentina e uma na Espanha, que foram desbaratadas em processo judicial. Marita não estava entre as 18 vítimas resgatadas.

Depois aconteceu um julgamento em que os 13 acusados pelo sequestro foram inocentados e ficaram em liberdade. Uma polêmica sentença que intensificou a luta de sua mãe, Susana Trimarco, que se transformou em uma espécie de ícone e cujos esforços provocaram o endurecimento da já existente Lei de Tráfico de Pessoas.

Mais tarde, o veredito foi levado para recurso na Suprema Corte de Justiça de Tucumán, que derrubou a sentença anterior e condenou todos os acusados em uma decisão confirmada em abril de 2014.

Os casos de Marita, María Cash e Sofia receberam especial atenção da Justiça porque ganharam relevância midiática. No entanto, Perofino lamenta a falta de compromisso de juízes e promotores com muitas outras desaparições que não chegam à televisão ou aos jornais.

A escassez de recursos e de tempo explicam, em parte, que as ações sejam investigadas "pouco e mal", ou que sejam arquivadas "muito rapidamente", mas também há negligência e desconhecimento das vias legais para enfrentar as investigações estagnadas, explicou a responsável pela ACCT.

Para corrigir estes aspectos, o relatório elaborou uma série de recomendações tanto ao Estado como à Justiça, que passam, em primeiro lugar, por estabelecer uma regulamentação e um protocolo claro a seguir a partir da denúncia dos desaparecimentos.

O documento propõe, além disso, uma base de dados muito mais precisa, comum e padronizada em todas as províncias, assim como agilizar a busca com os registros das pessoas encontradas, que como lembrou Perofino, estão desatualizados.

Enquanto isso, organizações como ACCT, Missing Children e Adultos Perdidos recebem ligações, comparam informações e atualizam suas bases de dados. Trabalham para que as famílias mantenham a esperança de voltar a ver os entes queridos que perderam.

"Por trás de cada desaparecimento há uma família que espera", lembrou Celeste.

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