"Black Twitter": o exército da moral da África do Sul negra

Marcel Gascón.

Johanesburgo, 28 jan (EFE).- Nascido nos Estados Unidos, o movimento "Black Twitter" reúne usuários negros que usam a rede social para denunciar atos racistas e defender a igualdade de direitos no mundo todo, uma voz que tem ecoado cada vez mais na África do Sul.

Uma série de ações racistas ocorridas no começo deste ano no país demonstrou a crescente importância deste espaço para assuntos de interesse da comunidade negra, que se transformou em uma espécie de exército da moral contra o racismo.

"O Black Twitter não teve tanta influência em lugar algum do mundo quanto teve na África do Sul. Três racistas em um dia", escreveu uma usuária em 4 de janeiro, quando três sul-africanos brancos foram demitidos e perderam patrocínios por comentários racistas que geraram uma onda de indignação na rede.

O peso do "Black Twitter" foi tanto que alguns partidos políticos e organizações sociais abriram ações legais contra eles. Antes, esta onda jovem e indignada já tinha liderado na web movimentos como o que conseguiu a retirada da estátua do líder colonialista britânico Cecil Rhodes da Universidade da Cidade do Cabo, com a #RhodesMustFall, que inspirou outras campanhas como #FeesMustFall.

Se a primeira acabou com um guindaste levando a estátua de Rhodes embora, a última culminou - após grandes protestos estudantis - com uma retificação do governo, que finalmente anulou o aumento das matrículas.

"Black Twitter agora é o novo governo da República", escreveu na rede social um de seus usuários, em referência ao poder que demonstrou ter. Outra, por sua vez postou que "Black Twitter é a CIA sul-africana", aludindo à capacidade de seus membros de coibir comportamentos racistas dentro e fora da rede.

Qualquer atitude discriminatória descoberta se transforma em denúncia pública através deste canal, no qual frequentemente surgem mensagens como "O Black Twitter já viu este racista?", acompanhado de dados que ajudam a identificar o autor com clareza.

Este fenômeno virou uma forma de eliminar a impunidade que racistas têm dentro e fora da rede, mas alguns temem que ele possa acabar com todas as opiniões diferentes.

O economista branco Chris Hart foi demitido do banco onde trabalhava depois de dizer no Twitter que, mais de duas décadas após o fim do apartheid, boa parte da população negra ainda é ressentida e acredita que os brancos devem algo.

Pouco depois, o jornalista branco Gareth Cliff foi tachado de racista e perdeu alguns trabalhos por criticar que persigam legalmente os comentários racistas, já que, em sua opinião, estão amparados pela liberdade de expressão.

"O Black Twitter é um fenômeno potencialmente perigoso para aqueles que não estejam dentro das linhas do 'status quo'. É um exército disposto a engolir massas inteiras investindo contra crenças, princípios morais e opiniões. Meu maior medo é que, em sua cruzada por fazer justiça, ele possa acabar na caça por vítimas inocentes", disse à Agência Efe a poeta negra Kutlwano Khali.

Khali ressaltou que o desejo de importância e popularidade de alguns usuários pode levar, "em questão de segundos" e "sem dificuldade", a boa reputação de qualquer um à ruina.

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