Ruptura parlamentar do kirchnerismo abala reorganização do peronismo

Aldana Vales.

Buenos Aires, 3 fev (EFE).- A ruptura do bloco kirchnerista nesta quarta-feira no Congresso da Argentina abalou peronismo, enquanto o partido tenta se reorganizar e superar a ferida causada pela recente derrota eleitoral que o afastou do poder depois de 12 anos na presidência.

Durante os governos de Néstor Kirchner e Cristina Kirchner, o Frente para a Vitória (Fpv) foi o espaço hegemônico no histórico Partido Justicialista (PJ), mas o triunfo do conservador Mauricio Macri nas eleições presidenciais de novembro do ano passado lhe desferiu um duro golpe.

O Conselho Nacional do Partido Justicialista realizou hoje uma reunião em Buenos Aires para delinear os passos para escolher o novo presidente do partido, poucas horas após saber que 18 deputados que chegaram ao Congresso argentino em cédulas do kirchnerismo abandonarão o bloco para formar um novo.

A bancada do Fpv, liderada pelo deputado Héctor Recalde, tentou manter-se unida esta semana, mas hoje a cisão foi evidente, uma vez que o grupo dissidente se ausentou da reunião convocada pelo espaço para definir a agenda parlamentar de 2016.

De forma simultânea, os deputados peronistas críticos com o kirchnerismo realizaram uma reunião após a qual justificaram sua decisão de separar-se do Fpv com base na necessidade de "acompanhar todos os governadores justicialistas e, junto a eles, garantir a governabilidade de cada uma das províncias governadas pelo PJ".

Por esse motivo, constituirão o Bloco Justicialista, no qual se destaca a presença de Diego Bossio, ex-titular da Administração Nacional da Seguridade Social - o organismo que administra a previdência na Argentina - desde 2009 e até o final do segundo mandato de Cristina.

"É um grave erro o que fizeram estes companheiros, de armar um bloco à parte, porque isto os constitui em funcionais para o macrismo governista governante", criticou o deputado kirchnerista Julio de Vido, que foi ministro durante os governos do falecido Néstor e de Cristina.

Apenas poucas horas após a divulgação dessa ruptura, os peronistas se reuniram hoje na sede do Conselho Nacional do PJ para definir os próximos passos para a escolha das novas autoridades do partido.

Um caminho que se anuncia tortuoso para o partido argentino, acostumado a deixar-se liderar pelos vencedores e que no ano passado se topou com uma dura derrota não só em nível nacional, mas em seu principal bastião, a populosa província de Buenos Aires, onde não tinha perdido nos últimos 28 anos.

Nesse marco, o PJ decidiu até o momento realizar um congresso nacional em 24 de fevereiro e convocar eleições para o próximo 8 de maio, embora ainda se desconheçam os detalhes de como serão escolhidas as novas autoridades.

José Luis Gioja, ex-governador da província de San Juan, e José Manuel de la Sota, ex-governador de Córdoba, são os nomes mais falados para presidir o PJ, embora o kirchnerismo já tenha antecipado sua rejeição ao segundo.

O arco do peronismo, mais amplo, inclui também dirigentes que já tinham formado blocos dissidentes em anos anteriores, ao opor-se ao governo de Cristina Kirchner, como o ex-candidato a presidente Sergio Massa, um dos que atualmente tentam liderar o histórico movimento.

Por outro lado, quem respira aliviado é Mauricio Macri, que chegou à presidência com um panorama adverso nas duas casas do Congresso argentino, uma vez que o Fpv ficou como o grupo mais numeroso na Câmara dos Deputados apesar da derrota e conservou a maioria no Senado.

Com as baixas na Câmara dos Deputados, o Fpv ficará agora com 80 cadeiras, enquanto o governo, entre os próprios deputados e aliados, assegura que alcança 90.

"Se estes ex-companheiros derem a possibilidade ao governo de Mauricio Macri de ter quórum, será uma notícia muito ruim para o povo argentino", advertiu a deputada kirchnerista Juliana Di Tullio, zangada com a "traição" dos que integravam o bloco.

Representantes do kirchnerismo insistiram hoje em minimizar a ruptura entre os deputados e asseguraram que o regulamento do Congresso reconhece "blocos", razão pela qual o Fpv considera que continua sendo a "maior bancada".

Resta ainda a notificação formal através de uma nota de renúncia dos deputados que formaram um movimento próprio, enquanto o Congresso argentino define a integração das distintas comissões para as sessões ordinárias, que começarão no próximo dia 1º de março.

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