A descoberta de Cabo de Hornos, a façanha que mudou a visão do mundo

Júlia Talarn Rabascall.

Cabo de Hornos (Chile), 9 fev (EFE).- Amanhece no fim do mundo, onde os marinheiros de todas as latitudes garantem que o diabo está nas profundezas. Neste domingo, no entanto, as águas escuras que rodeiam o Cabo de Hornos apresentam uma estranha mansidão, como se com ela quisessem prestar homenagem aos 400 anos de seu descobrimento.

Este remoto e enigmático lugar, onde o Oceano Pacífico e Atlântico "duelam", foi descoberto no dia 29 de janeiro de 1616 por Williem Schouten e Jacob Le Maire, dois holandeses "feitos de aço" que batizaram o penhasco em homegagem à cidade dos Países Baixos de onde zarparam em junho de 1615.

Eles foram os líderes de uma expedição de circunavegação da Terra que entrou nos mares do fim do mundo com o objetivo de descobrir uma passagem alternativa para o Estreito de Magalhães, que na época era controlada por uma empresa rival, a Companhia Holandesa das Índias Orientais.

A missão, encomendada pelo pai de Le Maire, fundador da companhia Austral, que pretendia acabar com o monopólio do comércio rumo à "Ilha das Especiarias", só foi comunicada aos 87 membros da tripulação depois de estarem navegando há semanas pelas águas do Atlântico.

"Além de tentar evitar a espionagem, decidiram manter a missão em segredo para poder encher o navio com marinheiros. Ninguém teria embarcado se soubesse que o propósito era navegar por mares desconhecidos", disse à Agência Efe a prefeita de Hoorn, Yvonne van Mastright.

Schouten e Le Maire zarparam do porto desta cidade, no norte da Holanda, a bordo do "Eedracht" e do "Hoorn", dois pequenos brigues (tipo de embarcação à vela, com dois ou três mastros) de madeira, convencidos de que existia uma rota interoceânica que ainda não tinha sido descoberta.

Além de desafiar o escorbuto, o frio atroz e a nevasca antártica que rasgava as velas dos brigues, na metade do caminho, no litoral do atual Puerto Deseado, na Argentina, os marinheiros sofreram com a destruição da embarcação "Hoorn" em um incêndio.

"A partir de então seguiram viagem com apenas um navio, o "Eendracht". Os marinheiros tiveram que compartilhar água, cama e comida", disse à Efe o vice-almirante holandês Matthieu Borsboom.

Oito meses depois de zarpar, adentraram nos misteriosos canais do fim do mundo, povoados por "seres gigantescos e monstros marítimos obscuros como a cinza e com cara de crocodilo", segundo o diário que Schouten publicou em seu retorno à Holanda.

"Dia 20 de janeiro. Céu escuro e mau tempo. Vimos algas e todo tipo de pássaros. O mar muda constantemente de cor e o ar está rarefeito", relatou Schouten, convencido de que a "brisa tóxica" que sopra no fim do mundo apodrece a carne e decompõe os mapas.

Dias antes de chegar ao Cabo de Hornos, o capitão escreveu em seu diário a ansiedade e o nervosismo que se apoderavam da tripulação.

"23 de janeiro. Estamos em águas pouco profundas, muitos não conseguem dormir pensando em achar a terra desconhecida", afirmou.

O encontro aconteceu na tarde do dia 29 de janeiro de 1616, quando viram um monte "alto e branco de neve" que acabava em uma "curva íngreme" que o capitão batizou em homenagem à cidade de Hoorn.

Sua façanha marcou o descobrimento pelos europeus deste temido marco geográfico, pois os indígenas americanos "que habitavam estas latitudes há pelo menos 600 anos passavam pelas águas do fim do planeta", explicou à Efe Alberto Serrano, diretor do Museu Antropológico Martín Gusinde, em Puerto Williams.

"Os cientistas constataram a presença de yaganes (canoeiros nômades) no Cabo de Hornos há mais de mil anos, portanto me parece justo dizer que Schouten e Le Maire foram os primeiros europeus a chegar ali, mas não descobriram nada", especificou.

O Eendracht seguiu seu caminho até Java, na Indonésia, onde foi confiscado por um membro da Companhia Holandesa das Índias Orientais que, por não crer que tinham encontrado a passagem os acusou de ter circulado pelo Estreito de Magalhães sem autorização.

Os intrépidos exploradores foram detidos e enviados em custódia a bordo de outra embarcação em condições que Le Maire não pôde suportar.

Dois anos e 18 dias depois do início de sua travessia, Schouten retornou à Holanda e botou um ponto final a uma "viagem triste e muito difícil", na qual teve que se despedir de um "querido e valioso amigo (Jacob Le Maire), que gostaria muito de poder ter visto o final desta aventura".

Quatro séculos depois desta façanha, que desenhou a forma definitiva do mapa do planeta, autoridades de Chile e da Holanda viajaram até a Ilha de Hornos para comemorar que, graças a esta épica travessia, se conseguiu unir o mundo de forma universal.

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