Cicatrizes invisíveis da guerra marcam futuro de crianças na Somália

Jessica Martorell.

Nairóbi, 10 fev (EFE).- As feridas emocionais marcam uma geração inteira da Somália, a das crianças, que viram a guerra destruir sua infância: tiveram que fugir de seus lares, presenciaram massacres ou se viram forçadas a se unir a grupos armados.

Além de bombas e mortes, o grupo jihadista Al Shabab, vinculado à Al Qaeda, transformou as comunidades em lugares de medo e deixou sua marca na mente dos menores para sempre.

"Comecei a lutar porque não tinha outra escolha. Era matar ou esperar que me matassem", contou Hanad, uma das 700 crianças que atualmente participam dos programas de reinserção do Unicef na Somália.

Os grupos armados aproveitaram a situação de desespero das comunidades, castigadas pela crise de fome e pobreza, para recrutar as crianças que vivem em famílias pobres e com poucas oportunidades de futuro.

Calcula-se que cerca de cinco mil menores de idade somalis estejam ligados a grupos armados após terem sido recrutados - na maioria dos casos à força - para servir como combatentes, cozinheiros ou esposas para os terroristas.

"A princípio, pensamos que estas pessoas eram boas porque sua ideologia se baseava na religião. Mas, com o tempo, nos demos conta que era uma má interpretação do Islã. Só prejudicavam as comunidades às quais pertencíamos. Por isso fugi", contou Ali, de 17 anos.

Em centros distribuídos por todo o país, o Unicef desenvolve programas de escolarização e de formação profissional a todos os menores que foram libertados das redes dos terroristas e oferece apoio psicológico para ajudá-los a curar as feridas emocionais da guerra.

Os menores chegam aos centros depois de conseguirem escapar por conta própria ou de terem sido resgatados em operações militares da Missão da União Africana na Somália (Amisom).

Mas não é só o grupo terrorista Al Shabab atua na Somália. Sem um governo efetivo há mais de duas décadas, o país está completamente vulnerável a milícias radicais islâmicas, senhores da guerra que respondem aos interesses de um clã e quadrilhas de criminosos armados.

Após vivenciarem a guerra tão de perto, o processo de reinserção não é fácil para essas crianças. Custa muito a elas falar sobre o assunto e, embora os psicólogos tentem ganhar sua confiança, muitos não querem contar o que passaram durante o tempo em que viveram como combatentes.

"Eles têm um comportamento passivo-agressivo: esperam e observam porque têm que criar confiança antes de falar. Têm um medo constante", explicou a diretora do programa de Proteção à Infância do Unicef, Sheema Sen Gupta, à Agência Efe.

Hanad aprende agora como consertar telefones celulares, o que pretende fazer para ganhar a vida: "Me sinto bem fazendo parte deste programa com gente como eu, que espera poder se graduar. Estou esperançoso com meu futuro. Eles são a minha família".

Após passarem pelos centros do Unicef, esses jovens retornam a suas comunidades para tentar seguir a vida.

"Alguns voltam ao centro para apoiar os novos que chegam e que vivem uma situação parecida com a deles. São um exemplo", afirmou Gupta.

Um dos grandes avanços conseguidos nos últimos anos, explicou, é o governo somali já não considerar estas crianças como terroristas e ter compreendido que são vítimas do conflito.

Os que lutaram na primeira linha de combate não são os únicos que sofrem com o conflito: há os que perderam os pais ou que tiveram que abandonar seus lares em condições muito precárias.

Além disso, apenas 42% das crianças somalis vão à escola, e em algumas áreas, como o centro-sul do país, 75% das escolas estão destruídas ou fechadas, segundo dados do Unicef. Apesar das dificuldades, todos esses jovens lutam diariamente para ser o que são: simplesmente crianças.

"Vemos as crianças nas praias, correndo e brincando. Certamente não são as crianças mais felizes do mundo, mas encontram maneiras de ser", explicou Gupta.

Em sua opinião, o mais triste é que há toda uma geração na Somália que não conhece nada além de uma vida imersa em um estado de guerra e caos.

"Chegam a pensar que a vida é assim", lamentou a diretora do programa do Unicef.

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