Velórios com pessoas armadas paralisam bairros inteiros na Venezuela

Nélida Fernández.

Caracas, 11 fev (EFE).- Grupos armados ordenam que os cidadãos deixem as ruas e paralisam bairros inteiros na Venezuela para realizar os velórios de seus líderes mortos e protestar contra supostas execuções da polícia.

Desde o final de janeiro, esta situação de intimidação aconteceu pelo menos duas vezes.

Em 4 de fevereiro, o norte da cidade central de Maracay amanheceu inundado de folhetos que advertiam que ninguém devia circular pois no dia anterior tinha morrido um jovem supostamente executado pela Polícia Científica (CICPC).

Nesse dia, os pais correram para buscar seus filhos nas escolas antes da hora de saída e as lojas fecharam suas portas porque os folhetos alertavam sobre "as consequências" de quem descumprisse as ordens.

O texto fala de José Gabriel Álvarez Rojas, conhecido como "El Chino Pedrera", suposto líder de um grupo criminoso que no passado também liderou uma prisão de Aragua, estado do qual Maracay é capital.

O panfleto, anônimo, reivindica ao governador de Aragua, Tareq el Aissami, "que tome medidas", ao afirmar "que não pode ser possível que um jovem que se preocupa com o bem-estar das comunidades do município de Girardot da zona norte de Maracay tenha sido morto como fizeram com Emilio José Rojas Madriz".

O comunicado diz, além disso, que "os principais corruptos do estado são os próprios órgãos de segurança", pois não levam em conta os "trabalhos sociais e doações" que o grupo que escreve a carta supostamente realiza "diariamente" em Aragua.

"Aqui no estado de Aragua vamos fazer bem aos nossos entes queridos e se vocês querem despertar um monstro, nós estaremos aqui para lutar", finaliza o texto.

O fato anterior aconteceu em 25 de janeiro na cidade de Porlamar, pertencente à Ilha Margarita, onde um grupo de presos prestou homenagem a seu ex-líder Teófilo Cazorla, conhecido como "El Conejo", que morreu baleado quando saía de uma boate.

Enquanto os presos disparavam para o ar com armas longas e pistolas, no interior da prisão, no dia seguinte, quando aconteceu o enterro, parte do grupo exigiu dos moradores que não saíssem nas ruas para que o caixão com o morto pudesse circular pela cidade.

A oposição política, que agora tem maioria no Parlamento do país, anunciou que abriria uma investigação pelo fato de que os presos possuam armas de guerra e solicitou a interpelação do ministro da Defesa, Vladimir Padrino.

Para o diretor do Observatório Venezuelano de Violência (OVV), Roberto Briceño León, "o nível de organização do crime na Venezuela está substituindo o Estado em alguns territórios".

O diretor afirmou à Agência Efe que estes grupos são organizados porque contam com o financiamento que lhes permite ter "uma força" de até 600 homens em alguns casos, além de armas e controle sobre o território.

"Em Maracay, a princípio, eles não ferem ninguém, não matam ninguém, mas todo mundo fica em casa, assim demonstram que têm o controle, o território, que têm o suficiente nível de persuasão e que afinal de contas representam ali mais que o próprio Estado", explicou.

Segundo o especialista, nas prisões "são organizados delitos, comandados sequestros e cobrados resgates, e também fazem demonstrações de força como a vista em Margarita".

Além disso, os assassinatos de policiais são cada vez mais frequentes na Venezuela, disse o diretor do OVV, que reconhece que estão acontecendo "muitas execuções" de criminosos por parte dos funcionários de segurança.

A organização OVV apresentou em dezembro do ano passado um relatório no qual afirma que a Venezuela registrou em 2015 o número recorde de 27.875 mortes violentas, o que significa uma taxa de 90 por cada cem mil habitantes.

Fontes oficiais reduzem significativamente os números. Segundo a procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, em 2015 a taxa de homicídios foi de 58,1 por cada 100 mil habitantes, o que se traduz em 17.778 mortos.

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