Abusos e abandono nos orfanatos: um tabu a ser combatido no Líbano

Kathy Seleme.

Beirute, 16 fev (EFE).- Em muitos casos, as crianças órfãs e de famílias pobres sofrem abusos nos centros de amparo de menores do Líbano, um problema transformado em tabu que uma ONG se propôs a quebrar.

A organização libanesa Agenda Legal ajudou um jovem a apresentar uma denúncia à justiça pelas violações sofridas em um desses centros há dez anos. E seu caso não é único.

Esse jovem entrou no orfanato aos dois anos de idade e viveu 12 no local, sendo estuprado com regularidade nos últimos cinco anos, relatou à Agência Efe o advogado Nizar Saghie, fundador da Agenda Legal.

Obrigada a se calar na época pelos responsáveis da instituição, a vítima denunciou agora tanto o centro como o Estado, em um processo judicial considerado complexo devido ao tempo que se passou desde os incidentes.

"Ele não é a primeira vítima de estupros, mas é o único que está decidido a mudar as coisas. Os outros se sentem vulneráveis, frágeis e preferem desistir caso consigam uma pequena compensação, indispensável em seu caso", lamentou o advogado.

Para Saghie, o importante deste processo é "quebrar os tabus e que tenha um impacto, para que os responsáveis sejam conscientes que possam ser afetados".

"Os responsáveis por essas instituições ganham dinheiro e as crianças se transformam em uma mercadoria", denunciou o ativista, que detalhou que os estupradores geralmente são outras crianças internadas, mais velhas que as vítimas, que em alguns casos adotam esse mesmo papel depois.

Os orfanatos, financiados pelo Estado, mas não supervisionados, dependem dos diferentes grupos religiosos do Líbano, razão pela qual qualquer denúncia contra eles é rejeitada pelos membros da comunidade.

De acordo com um estudo do Centro Kamal Hamedan, em cooperação com o Ministério de Assuntos Sociais libanês, 27 mil menores vivem nessas instituições, dos quais 80% têm pais sem recursos e os outros 20% restantes são órfãos ou abandonados.

Na opinião da ex-ministra de Estado Mona Afeiche, militante pelos direitos dos menores, é "necessário que o Estado supervisione essas instituições e garanta que os funcionários são aptos e não têm antecedentes penais".

Afeiche afirmou à Efe que em pelo menos dois ou três desses centros os menores não recebem a educação esperada, sendo privados de ir ao colégio e obrigados a trabalhar antes da idade legal.

"Há um mês, veio um adolescente dessas instituições buscando trabalho, mas após alguns dias recusou o emprego porque não sabia distinguir os números e não queria que os outros percebessem", relatou.

A situação se agrava devido ao aumento da pobreza e do desemprego no país desde a explosão do conflito em março de 2011 na vizinha Síria.

Radwan Alamedin, assistente social da ONG Save of the Children, disse que as instituições de caridade têm a obrigação de educar as crianças, oferecer entretenimento e proporcionar acompanhamento psicológico. No entanto, em algumas ocorrem "coisas graves".

"Não dão uma boa alimentação nem roupa suficiente às crianças, que sempre estão sujas e são proibidas de ver os pais, além de serem castigadas corporalmente para que fiquem calmas ou durmam", comentou.

Alamedin também criticou a corrupção dentro dessas instituições, que não permite que o dinheiro dos doadores seja convertido no bem-estar das crianças.

Como exemplo, Alemedin relatou o caso de um órfão de cinco anos que se aproximou em um parque "em busca de carinho" e a contou com tristeza que não recebe visitas.

A assistente social afirmou, no entanto, que isto não ocorre em todos os centros, que em muitos casos dão uma boa educação, inclusive buscando voluntários para que ajudem os menores com seus deveres escolares.

Para o fundador de Agenda Legal, a solução para este problema é que o Estado ajude economicamente as famílias pobres, para que não se vejam obrigadas a abandonar seus filhos em instituições ruins, submetendo as crianças ao risco de se tornarem vítimas de abusos. EFE

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