Referendo sobre reeleição de Evo Morales divide a Bolívia

Lorena Cantó.

La Paz, 19 fev (EFE).- Os bolivianos decidirão no próximo domingo se aprovam uma década do governo de Evo Morales em um referendo que decidirá se o atual presidente poderá se candidatar à reeleição, embalado pelo crescimento econômico do país, mas enfrentando problemas como a corrupção, o personalismo e os poucos avanços sociais.

A melhora da economia boliviana é inquestionável, com crescimentos anuais de até 6%, e foi avalizada por organismos internacionais como o Banco Mundial, com dados objetivos como a diminuição da pobreza extrema de 38,2% para 17%.

A nacionalização dos hidrocarbonetos em 2006, uma das principais medidas de Morales logo após chegar ao poder, gerou receitas ao Estado graças à venda de gás a Brasil e Argentina. Entretanto, com a queda dos preços do petróleo - aos quais estão indexados os de gás -, esses lucros começaram a diminuir com rapidez.

Essa década de prosperidade é o principal argumento a favor de Morales, que pretende governar até 2025 para iniciar a chamada "Agenda Patriótica", um programa de medidas com o qual o bicentenário do país andino será comemorado.

A oposição manteve um árduo confronto com o governo nos últimos meses, e defende que Morales não fez nada além de colher os frutos de medidas implementadas por governos anteriores.

Além disso, os partidários do "não" acusam o governo de desperdiçar milhões em iniciativas que não eram imprescindíveis para o país - como um satélite, um enorme museu na cidade natal de Morales e centenas de campos de futebol com gramado artificial - em detrimento de investimentos nos precários sistemas de saúde e educação.

Também é creditado a Morales o palpável "empoderamento" dos indígenas e a ascensão de uma nova burguesia dessa origem, embora as etnias mais beneficiadas pelas novas regras sociais sejam os aimarás e os quíchuas, enquanto os indígenas do leste boliviano alegam reiteradamente que são discriminados pelo atual governo.

De fato, um dos episódios mais polêmicos desde a chegada de Morales ao poder se deveu à oposição dos indígenas da Amazônia a um projeto impulsionado pelo governo para construir uma estrada atravessando a Terra Indígena e Parque Nacional Isiboro-Secure (Tipnis).

Outro grande trunfo do governante é ter levado à Corte Internacional de Justiça de Haia a centenária reivindicação boliviana de recuperar sua saída ao mar, perdida em uma guerra contra o Chile no século XIX, assunto que une todos os bolivianos e no qual Morales envolveu diretamente todos os ex-presidentes do país, opositores ou não.

O estilo particular e personalista de governar de Morales trouxe seguidores e opositores na mesma medida. Os defensores do "sim" argumentam que é necessário que o atual presidente governe até 2025 para consolidar seu chamado "processo de mudança", enquanto os opositores consideram um insulto pensar que só Morales pode garantir o bem-estar do país, e alertam que aprovar a reeleição seria mudar a Constituição em benefício de uma pessoa.

O deplorável estado da Justiça, a legalização do trabalho infantil com 800 mil crianças trabalhando no país, os altos índices de violência doméstica e infantil e os ataques à imprensa são outros pontos negativos enfrentados por Morales após dez anos no poder.

Assim, as duas opções apareciam muito divididas nas pesquisas, embora um escândalo de última hora, o primeiro que envolve diretamente o presidente, tenha inclinado a balança para o lado do "não".

Embora o governo Morales já tenha enfrentado escândalos de corrupção, como o da fraude do Fundo Indígena - projetos "fantasmas" que receberam verba, mas não foram executados -, na última semana foi revelado que Gabriela Zapata, uma ex-companheira do líder, é gerente de uma empresa chinesa com contratos milionários com o Estado.

O caso, chamado de "zapatazo", causou indignação no país e é o primeiro que atinge de forma tão pessoal o governante, que acusa os Estados Unidos de estarem por trás de uma "conspiração".

A atmosfera antes do referendo ganhou ainda ares de luto esta semana com a morte de seis pessoas em um incêndio provocado por uma multidão enfurecida na prefeitura de El Alto, antes um bastião governista e agora nas mãos da oposição.

Um alto cargo do governo acusou as autoridades da cidade de ter provocado um "autoatentado", enquanto a prefeita e testemunhas asseguram que entre a multidão enfurecida havia pessoas ligadas ao governo.

O trágico incidente aconteceu em uma cidade de maioria aimará, a segunda mais populosa da Bolívia, e que em algumas ocasiões anteriores foi capaz de se rebelar e derrubar governos.

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