Humilhação é uma das razões para onda de ataques de adolescentes palestinos

María Sevillano.

Ramala (Cisjordânia), 21 fev (EFE).- Mais de 30 adolescentes palestinos morreram abatidos ao esfaquear ou tentar agredir israelenses nos últimos quatro meses. Suas famílias e especialistas se perguntam o que os leva a cometer ataques nos quais sabem que provavelmente serão mortos.

Hadil Awad tinha 14 anos, uma família convencional (que ainda estava em luto pela morte de seu irmão Mahmoud, há dois anos, baleado na cabeça por forças israelenses), tirava boas notas e queria ser médica, contou sua mãe, Maliha Jadernaja, em sua casa próxima a Qalandia, a poucos metros do muro construído por Israel, que bloqueia o caminho a Jerusalém e criou uma paisagem cinza de concreto.

"Uma manhã saiu para ir à escola, mas me ligaram para dizer que não tinha ido. Depois escutamos que havia uma operação (como os palestinos chamam os ataques contra israelenses) e, quando ligamos a televisão, a vimos. Tinha sido ela", contou à Agência Efe, ainda sem acreditar.

Junto com sua prima, Nourhan, de 16 anos, atacou a tesouradas um homem idoso perto do mercado central de Jerusalém, ferindo-o antes de encarar - com mais medo do que determinação - (como mostrou um vídeo divulgado na internet) um guarda de segurança israelense que a abateu a tiros. Ela morreu na hora e Nourhan ficou ferida.

O psicólogo infantil Moussa Najib acredita que os adolescentes que, como elas, protagonizaram este tipo de ataques, atuam entre outros motivos em uma reação à perda da autoridade paterna, familiar ou social, que foi desafiada por Israel, e pelos efeitos da ocupação.

"Veem tudo o que os rodeia, que os israelenses não têm linhas vermelhas, que prendem gente, atacam, invadem cidades e entram nas casas. Veem seus pais e seus avôs golpeados, humilhados, atingidos de maneiras diferentes", explicou à Efe.

O psicólogo ressaltou que, quando iniciamos a adolescência, nossos pais "são heróis que podem tudo. E, de repente, descobrimos que nosso herói não é. Isto tem uma carga psicológica que os faz reagir".

Quando agem, "se transformam em heróis por si mesmos, porque protegem sua família, suas terras e, de algum modo, inclusive o conceito de autoridade que tinha se desvanecido".

À esta sensação se une a falta de horizonte de paz, o desespero diante de uma ocupação em que nasceram e que não veem final e, segundo Israel, também a incitação pela divulgação das notícias nos meios de comunicação e na internet.

Issam Khatib, assistente social de uma ONG de Ramala que oferece apoio psicológico e social a menores palestinos concorda com Najib.

Para ele, os jovens agressores têm um pensamento idealista e creem que, com seus atos, "se sacrificam pelos demais para conseguir uma vida melhor", o que difere da concepção mais pragmática dos agressores adultos, que costumam se considerar "lutadores pela liberdade".

Em geral, estes adolescentes vêm de um entorno familiar que os protege, sua situação econômica é normal, são bons estudantes e têm reconhecimento em sua comunidade, apontaram os especialistas palestinos, que rebatem a "narrativa israelense" que os descreve como problemáticos, carentes de confiança ou que buscam o suicídio.

Khatib destacou que, por trás destes ataques, que se multiplicaram nos últimos quatro meses e meio, "não há nenhuma facção armada ou política. Eles agem por si mesmos".

Desde o início de outubro, a violência na região deixou 178 palestinos mortos, mais de dois terços ao realizar ataques ou supostos ataques (a maioria com arma branca), que causaram 28 vítimas mortais israelenses e três de outras nacionalidades.

Segundo fontes israelenses, 37% dos agressores tinha menos de 20 anos.

Entre os palestinos abatidos em agressões ou distúrbios há 37 com menos de 18 anos, o que levou instituições e ONGs a denunciarem uma "resposta excessiva" das forças armadas israelenses, e acusá-las de "disparar para matar", mesmo quando o suspeito é obviamente um adolescente.

Bashar Yamal, da ONG Defence for Children International (Defesa Internacional das Crianças), não nega que exista uma tendência crescente de casos de menores palestinos que apunhalam israelenses, mas denunciou o "uso excessivo da força" contra eles.

"Considerar que as crianças palestinas se propõem a apunhalar sem refletir mais é ilógico. É preciso levar em conta a atmosfera da ocupação", disse Yamal, salientando que para ele é "motivação" para estes atos, porque as crianças cresceram em um ambiente militarizado, com presença constante de soldados, postos de controle, assentamentos e humilhações.

Khatib destacou que viver em um mundo global e conectado também tem um papel importante, mas avalia que as redes sociais não são tanto fontes de incitação à violência, como argumenta Israel, mas mais uma janela em que os adolescentes descobrem outros mundos.

"Eles veem as diferenças e isto os encoraja a agir", ponderou Khatib.

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