De uma cela diminuta à liberdade: o detento que viveu 43 anos isolado nos EUA

Beatriz Pascual Macías.

Washington, 22 fev (EFE).- A viagem entre uma diminuta cela de cinco metros quadrados e a liberdade foi longa e cheia de pedras para Albert Woodfox, o detento dos Estados Unidos que permaneceu 43 anos em regime de isolamento, sem nenhum tipo de contato humano e que no final da semana passada pôde voltar para casa.

Segundo muitas organizações, Woodfox passou mais tempo em regime de isolamento que nenhum outro prisioneiro dos EUA.

Quando começou seu isolamento em 1972, Richard Nixon era presidente, o mundo estava dividido em blocos e as potências trocavam ameaças durante a Guerra Fria.

Na última sexta-feira, quando deixou a prisão, o primeiro presidente negro governava os EUA e a informação era transmitida com telefones celulares em milésimos de segundo.

Woodfox foi encarcerado em uma prisão da Louisiana por roubo à mão armada, supostamente matou um guarda do presídio e agora enfrentava um terceiro julgamento por este assassinato, mas dada sua idade avançada (69 anos), sua saúde e a falta de garantias para um "julgamento justo", um magistrado decidiu deixá-lo em liberdade.

O caso de Woodfox, um homem negro, despertou grande polêmica e vários juízes estaduais e federais desprezaram as acusações de assassinato ao alegar que houve preconceitos raciais durante o processo.

"Embora tivesse vontade de provar minha inocência em um novo julgamento, a preocupação com minha saúde e minha idade resolveram este caso (...) Espero que os eventos de hoje sirvam para curar muitos", disse Woodfox, sempre defensor de sua inocência, logo depois de ser libertado, segundo um comunicado de sua equipe legal.

Ao assassinato do guarda Brent Miller, de 23 anos, também foram vinculados outros dois presos, todos eles negros e conhecidos internacionalmente como "Os três de Angola".

A penitenciária estadual da Louisiana, onde estava recluso o trio de presos, ganhou o apelido de "Angola" por ser esse o país africano do qual provinha a maioria de escravos que trabalhavam nas plantações de algodão, que depois se transformaram na prisão, rodeada em três de suas laterais pelo rio Mississipi.

Como parte do movimento dos Panteras Negras, "Os três de Angola" fizeram campanha contra a segregação dentro das prisões na década dos 70, o que, segundo seus partidários, fez com que em 1972 fossem acusados do assassinato do guarda como vingança por suas posições políticas.

Libertado no dia de seu 69º aniversário, Woodfox era o único que permanecia preso, pois os outros membros do trio, Robert King e Herman Wallace, foram postos em liberdade em 2001 e 2013, respectivamente.

A condenação contra King foi cancelada e Wallace saiu por ter sido diagnosticado com um câncer de fígado, que o matou dias depois.

Cada vez que Woodfox recorria de sua pena (fez isso com sucesso duas vezes), a procuradoria da Louisiana insistia em condená-lo de novo e o veterano diretor da prisão, Burl Cain, argumentava que o réu era perigoso demais e devia permanecer isolado, em uma cela sem janelas e menor que a maioria dos banheiros.

Durante 43 anos, Woodfox passou 23 horas ao dia sozinho, comendo só, com acesso limitado a visitas e sem nenhum acesso às atividades educativas e religiosas da prisão.

"Tenho medo de começar a gritar e não ser capaz de parar. Tenho medo de me transformar em um bebê e me proteger em posição fetal e ficar assim para o resto da minha vida", afirmou Woodfox em junho de 2015 a uma socióloga.

"Tenho medo de atacar meu corpo, talvez cortar meus testículos e atirá-los através das barras. Vi outros fazendo isso quando não aguentavam mais", acrescentou o detento.

Em 2006, em um relatório, a magistrada Docia Dalby descreveu as quatro décadas em regime de isolamento de Woodfox como uma "duração além dos limites" da jurisprudência americana.

O relator da ONU sobre a tortura e outros tratos degradantes, Juan Méndez, pediu a proibição do encarceramento em regime de isolamento durante mais de 15 dias, devido aos graves danos mentais que pode causar ao detento.

"Tortura" é exatamente a palavra que utilizaram para descrever os 43 anos de isolamento de Albert Woodfox organizações como a União para as Liberdades Civis na América (ACLU) e a Anistia Internacional (AI).

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