Castigo à austeridade do governo abre período de incerteza na Irlanda

Javier Aja.

Dublin, 27 fev (EFE).- O severo castigo infligido ao Executivo de coalizão entre conservadores e trabalhistas nas eleições gerais da Irlanda de sexta-feira abre a porta para pactos complicados e inclusive à possibilidade de novos pleitos dentro de seis meses se não houver acordos de governo.

Enquanto a apuração de votos avança com lentidão neste sábado, os primeiros dados provisórios apontam para uma frágil vitória do Fine Gael (FG) do primeiro-ministro, o democrata-cristão Enda Kenny, e constatam o naufrágio do Partido Trabalhista (LB).

Ambas legendas, vítimas de suas políticas de austeridade, ficariam longe de alcançar a maioria absoluta, o que proporcionaria, entre outras opções, uma grande coalizão entre o FG e o centrista Fianna Fáil (FF), os dois partidos que se alternaram no poder desde a independência da Irlanda há quase um século.

"A população se pronunciou e quer uma mudança de direção", ressaltou Micheál Martin, líder do FF, que obteria, segundo as pesquisas, cerca de 20% dos votos e se situaria como a segunda força na câmara baixa de Dublin (Dáil), composta por 158 cadeiras.

Segundo o dirigente centrista, o "povo rejeitou" a gestão do Executivo, desgastado após aplicar o duro resgate que o próprio FF, com ele como ministro, solicitou em 2010 à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional.

Este resultado lhe colocaria a muito pouca distância do FG, que ganharia o pleito, segundo as estimativas, com 25% de votos, quase 5% menos que o esperado, enquanto o LB poderia perder quase um terço de cadeiras com um pobre percentual de 7%.

Martin não quis avaliar hoje a possibilidade de assinar um grande pacto com os democratas-cristãos, apesar de ambos líderes terem rejeitado taxativamente essa opção durante a campanha eleitoral.

Se não forem capazes de deixar de lado suas diferenças históricas, que remontam à guerra civil irlandesa (1922-1923), os analistas consideram que as outras combinações não produziriam um Executivo estável, o que obrigaria o país a realizar outras eleições gerais.

Outras alternativas passam pela busca de apoios entre as formações minoritárias de esquerda e conservadoras e os candidatos independentes, que também tiraram proveito do descontentamento do eleitorado com os partidos tradicionais.

Este novo cenário permitirá que a Irlanda tenha a partir de agora uma "autêntica esquerda", segundo afirmou hoje um dos líderes dessas formações minoritárias, cujo auge provocou "um abalo sísmico" no sistema político e o começo de uma "nova era".

Assim se expressou Richard Boyd Barrett, dirigente da aliança antiausteridade People Before Profit (O Povo Antes do Lucro), que poderia obter 4,7% de votos, o que se traduziria em um aumento de entre seis e oito deputados no Dáil, frente aos dois que teve na legislatura anterior, quando a capacidade era de 166 assentos.

Também aumentaria sua presença parlamentar o grupo dos candidatos independentes, composto por indivíduos de várias tendências e que poderia somar até 22 cadeiras ao receber 11% dos votos.

"Chegou a hora para que a autêntica esquerda impeça que a falsa esquerda siga apoiando à direita", disse Boyd Barrett em referência ao LB, parceiro minoritário em diferentes governos durante as últimas décadas.

Frente a essa possível grande coalizão dos partidos hegemônicos, Boyd Barrett se mostrou confiante em que o novo Dáil será capaz de mostrar sua força, se o esquerdista Sinn Féin de Gerry Adams, também contrário à austeridade, aumentar, como espera, em cerca de 50% o número de 14 cadeiras que obteve há cinco anos.

O antigo braço político do inativo Exército Republicano Irlandês (IRA) poderia se transformar na terceira força nacional ao obter 16% de votos, quase 7% a mais que nas últimas eleições, quando passou de ter 10 deputados a 14.

No entanto, os outros três partidos tradicionais não querem o Sinn Féin em um governo de coalizão, e os republicanos, por sua vez, também não têm intenção de fazer parte de "qualquer Executivo liderado pelo FF ou o FG", ressaltou hoje Adams.

Além da legenda de Barrett e dos independentes, outros partidos minoritários, como Os Verdes, o conservador Renua - uma cisão do FG - e o Partido Social-Democrata, ambos de recente criação, poderiam passar a integrar esta heterogênea bancada parlamentar, cuja estimativa de voto total ronda os 30%.

Devido ao complexo sistema eleitoral irlandês, na última hora da tarde de hoje a apuração só tinha definido 13 das 158 cadeiras em disputa.

O anúncio oficial dos resultados definitivos pode acontecer apenas neste domingo ou até se estender para o resto da semana, caso sejam apresentadas impugnações.

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