Gorbachev completa 85 anos perseguido pelos fantasmas do passado

Ignacio Ortega.

Moscou, 2 mar (EFE).- O último dirigente soviético, Mikhail Gorbachev, completou 85 anos nesta quarta-feira com duras críticas ao Kremlin, mas perseguido por fantasmas do passado: a repressão do movimento independentista báltico e a desintegração da União Soviética.

"Sabia e sei que não há reformistas felizes. Mas estou agradecido ao destino porque pude dizer ao povo (soviético) que não podíamos seguir vivendo assim. Sigo sendo fiel às ideias da Perestroika", afirmou Gorbachev às vésperas de seu aniversário.

Gorbachev, que abandonou a política há muitos anos após ver fracassar seu projeto social-democrata, não conseguiu com a passagem dos anos que seus concidadãos e rivais lhe perdoassem pelos cataclismos que se seguiram a seus seis anos à frente do Kremlin (1985-91).

O presidente russo, Vladimir Putin, lhe enviou hoje uma mensagem de felicitação na qual lhe descreve como "um homem brilhante e extraordinário", mas a relação entre os dois se deteriorou muito nos últimos anos.

"Havia que lutar pela integridade territorial de nosso Estado de maneira mais insistente, consequente e ousada, e não esconder a cabeça sob a areia, com a bunda de fora", lhe disse há vários anos Putin, que considera que a desintegração da URSS foi "a maior catástrofe geopolítica do século XX".

Putin respondeu assim a Gorbachev quando este pediu abertamente a renúncia do governo após os maiores protestos antigovernamentais em 20 anos, provocados pelas denúncias de fraude nas eleições legislativas de 2011.

Há poucos dias o cineasta mais laureado da história da Rússia e incondicional partidário do chefe do Kremlin, Nikita Mijalkov, reavivou a polêmica ao pedir que Gorbachev, da mesma forma que o primeiro presidente russo, Boris Yeltsin, sejam declarados criminosos pelo Estado devido a seu papel na dissolução da URSS.

"Eles cometeram um autêntico crime. Seus atos conduziram ao desaparecimento de nosso país", argumentou.

Essa opinião é compartilhada por 24% dos russos, que acusam Gorbachev de "destruir de maneira consciente uma grande potência", enquanto 47% acredita que este não fez nada bom por seu país, segundo uma pesquisa divulgada hoje pelo centro VTSIOM.

Apenas 12% dos consultados vê Gorbachev como "um homem valente que não temeu assumir a responsabilidade e efetuar as reformas necessárias", 6% avalia como algo positivo o fim da Guerra Fria e outro 5% a introdução das liberdades civis.

"As feridas pela queda da URSS e as dificuldades vividas, que os russos relacionam com o nome de Gorbachev, não cicatrizam. Gorbachev é o homem que não pôde salvar o país", comentou Mikhail Mamonov, diretor de projetos do VTSIOM.

Outra das manchas negras no histórico de Gorbachev é a repressão do movimento independentista báltico, especialmente na Lituânia, onde 14 pessoas morreram ao tentar impedir a invasão da torre de televisão pelas tropas soviéticas.

"Meu credo é: nunca derramar sangue", afirmou Gorbachev em recente entrevista.

No entanto, os lituanos consideram que o então líder soviético é responsável direto ou indireto do massacre, motivo pelo que querem que compareça no julgamento que se iniciou em Vilnius no começo do ano.

O primeiro presidente da Lituânia independente, Vytautas Landsberguis, considera que sem a presença de Gorbachev, seja como testemunha ou no banco dos réus, o julgamento não pode ser justo.

Mas a procuradoria lituana se negou por enquanto, alegando a ausência de documentos que confirmem que Gorbachev ordenou pessoalmente o uso de força contra os independentistas.

Por outra parte, Gorbachev lamentou estes dias que a nova Guerra Fria entre Moscou e Washington esteja arruinando seu legado, já que, depois que ambas potências reduziram seus arsenais estratégicos, agora Putin introduziu na nova doutrina militar o possível uso das armas nucleares.

O dilema "Guerra e Paz" voltou ao primeiro plano da política mundial, advertiu.

Com a passagem dos anos, Gorbachev se mostrou cada vez mais crítico com a gestão de Putin, a quem acusa de "tendências autoritárias" e de criar uma "democracia dirigida" e uma "vertical de poder" de personalidade militar.

"É evidente que o atual modelo de gestão não funciona, seja em política ou em economia. Não pode ser que todas as decisões confluam em uma só pessoa. Ninguém tem o monopólio da verdade", escreveu em artigo publicado no jornal "Novaya Gazeta".

Por outro lado, em política externa não duvidou em apoiar a anexação russa da Crimeia, denuncia a expansão agressiva da Otan e acusa os EUA de tentar dirigir o mundo sozinho.

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