Símbolo da burguesia francesa, Calais quer evitar virar cidade dos imigrantes

Luis Miguel Pascual.

Calais (França), 4 mar (EFE).- Houve momentos na história em que Calais foi uma ponte entre a França e o Reino Unido. Em outros, um dique. A cidade portuária francesa, passagem natural entre o continente europeu e as ilhas britânicas, resiste a ver sua imagem vinculada ao acampamento de imigrantes que abriga há anos.

"Antes as pessoas nos conheciam pelos burgueses, agora, pela 'Selva", afirmou Albert, um estudante que atravessava rapidamente a Praça de São Pedro da cidade, onde fica a monumental estátua que Auguste Rodin dedicou no final do século XIX aos burgueses da cidade.

Esse fato, que aconteceu em 1346, ficou gravado na memória dos cidadãos de Calais, que lembram com orgulho como seus habitantes enfrentaram, quase até morrer de fome, as hostes inglesas e como seis de seus notáveis se sacrificaram para aplacar a ira do rei Eduardo III da Inglaterra.

Conquistada por esse monarca e nas mãos dos ingleses até meados do século XVI, Calais mantém hoje um profundo sotaque inglês, sobretudo porque a maior parte de seus turistas vêm do outro lado do canal da Mancha. Ou vinham.

"Antes, 80% dos meus clientes eram ingleses. Agora, não acredito que cheguem a 10%", disse Amandine, que gerencia junto com seu marido o bistrô "Le Grillon".

Eloquente, ela relatou que quando a chamam para levar as sobras das refeições é sempre com o mesmo argumento: "O embrulho é para os imigrantes".

"Eles veem na televisão que há muita confusão e, além disso, temem ficar bloqueados se o túnel for fechado", afirmou ela atrás do balcão seu estabelecimento, decorado com uma infinidade dos típicos chapéus de policiais ingleses.

Assim como muitos outros moradores, Amandine deseja que sua cidade deixe de estar associada à "Selva". "Desde 2002 temos imigrantes por nossas ruas. Na época vinham do Kosovo. Mas como agora nunca vimos", disse.

Embora os imigrantes tenham praticamente abandonado a cidade para se instalarem nos arredores, na "Selva", sua presença é notada no comércio e no turismo.

Segundo os dados de uma associação local, o faturamento desses setores caiu 40% em um ano, e por isso cobram um plano de urgência do Estado.

Além da perda direta de receita, que atribuem à queda no turismo, há uma atmosfera de medo perto da "Selva", como no bairro de Petit Quinquin.

Nessa região, onde basta abrir a janela das casas para ver a enorme extensão do povoado erguido pelos imigrantes, o preço dos imóveis desabou, queixaram-se os moradores.

Algo semelhante está acontecendo em Grande-Synthe, nos arredores da cidade de Dunkerque, onde surgiu outro acampamento de refugiados, a maior parte de curdos iraquianos, e que vivem em condições muito piores do que as da "Selva".

Construído em um campo ao lado de um bairro residencial de casas geminadas, cada uma com um simpático jardim em frente, o bairro está submetido a uma forte vigilância policial, sobretudo depois de uma pessoa morrer em circunstâncias ainda não esclarecidas.

Na região, os moradores torcem o nariz quando veem os jornalistas se aproximarem do acampamento e abaixam a cabeça quando são abordados.

"Estamos cansados", afirmou uma senhora idosa enquanto acelerava o passo, arrastando seu carrinho de compras para evitar as câmeras.

Os moradores de Calais já expressaram seu descontentamento mais de uma vez em manifestações, mas esperam fazê-lo de forma ainda mais sonora na segunda-feira, dia 7, pelas ruas de Paris. "Não estamos contra os imigrantes, que fique claro, mas esta situação não pode continuar assim", resumiu Albert.

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