De funcionária de Obama a professora de filhas de prostitutas em Mumbai

Noemí Jabois.

Nova Délhi, 15 mar (EFE).- Funcionária no escritório de Barack Obama quando ele não era nada além de um senador em Illinois e expulsa da Força Aérea dos Estados Unidos por afirmar sua homossexualidade, Robin Chaurasiya é atualmente finalista de um prestigiado prêmio por um trabalho bastante inovador: o de dar aulas a filhas de prostitutas na Índia.

A jovem americana de origem indiana lamenta que a maior parte de seu reconhecimento venha de fora da Índia, onde o conservadorismo se choca com seu método de ensino "informal" e onde enfrenta incontáveis impedimentos por atuar com filhas de trabalhadoras do sexo.

Sua ONG, a Kranti, que significa "revolução" em híndi, acolhe 16 adolescentes e duas vítimas de tráfico de pessoas em Mumbai. O trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Global Teacher Prize, o "Nobel da Educação", e no qual concorre pela primeira vez um brasileiro, o mato-grossense Marcio Andrade Batista.

Depois de entrar para o mundo do voluntariado ainda muito jovem, Robin admite que se aproximou dessas meninas, em parte, por sustentarem algumas "lutas" que ela mesma viveu na infância.

"Cresci em uma casa com muita violência doméstica e minha mãe tinha esquizofrenia", conta.

Antes de dividir uma casa com 18 "revolucionárias" - como ela chama suas alunas -, Robin trabalhou para o então senador Barack Obama e serviu à Força Aérea americana. Ela explica que as meninas ficam na ONG durante quatro horas na parte da manhã. Depois, elas vão à escola formal.

Suas atribuladas tardes continuam sendo dedicadas as aulas de inglês, teatro e música, ou "explorando e experimentando diferentes coisas" que acontecem na cidade.

"As pessoas na Índia não acreditam necessariamente no tipo de educação que eu acredito. Aqui é um lugar muito tradicional. Quase 100% da Índia ainda acha que a pessoa tem que ser engenheiro ou médico, que você deve focar apenas no vestibular e que a educação formal é tudo", explica.

Mas suas alunas não representam o modelo tradicional de estudante. Elas vêm de Kamathipura, um dos maiores pontos de prostituição da Ásia, e muitas das mães das "revolucionárias" foram alvo de tráfico humano quando tinham entre 10 e 15 anos.

A Kranti sobrevive graças a doações privadas e campanhas de "crowdfunding" e quase não recebe financiamento de empresas.

"Às companhias adoram as crianças pequenas, a educação, os órfãos, mas ninguém se comove com os problemas do trabalho sexual", comenta.

A origem das meninas também não ajuda na hora de encontrar um lar comum para todas, um problema que elas vivem há anos. Por morarem juntas, quando o grupo procura uma casa para alugar precisa se passar por uma instituição que atua com órfãos, por exemplo. Contudo, quando os proprietários descobrem a verdadeira história da Kranti, imediatamente colocam as meninas na rua.

Apesar de tudo, ela afirma que a situação tem melhorado "muito" nos últimos anos, graças ao surgimento de outras ONGs e da alta do preço dos alugueis.

Exceto pelo fato de algumas progenitoras terem morrido e outras terem graves problemas mentais ou dependências, a Kranti e as meninas têm "boas relações" com as mães. Isso se deve ao fato de a equipe da ONG e as próprias mães se esforçarem para fazer às jovens entenderem que elas se dedicam à prostituição para proporcionar uma vida que elas não puderam ter.

"Muitas mães falam sobre o tema com as filhas e dizem que preferem se prostituir a ter a menina em uma escola inglesa ou como empregada. Nosso sonho é ter nossa própria casa de onde não poderemos ser expulsas e onde possamos unir um albergue a uma escola para poder ter mais alunas", revela.

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