Ballarat e o pesadelo para vítimas de sacerdotes na Austrália

Rocío Otoya.

Sydney (Austrália), 17 mar (EFE).- A cidade de Ballarat, no sudeste da Austrália, é um pesadelo para os menores que sofreram abusos sexuais por parte de sacerdotes católicos no século passado, o que levou quase 50 vítimas ao suicídio.

Declarações feitas recentemente pelo cardeal australiano George Pell, encarregado de finanças do Vaticano, a uma comissão nacional que investiga os casos de pedofilia na Igreja australiana confirmaram o obscuro passado de Ballarat.

Antes de ir para a arquidiocese de Melbourne, Pell nasceu e trabalhou como sacerdote nessa cidade do estado de Victoria e que a febre do ouro no século XIX elevou de uma estação de criação de ovelhas a um povoado próspero.

Lá, membros da congregação dos Irmãos Cristãos cometeram abusos sexuais enquanto trabalhavam em escolas da cidade e regiões próximas, segundo o chamado "Caso 28", que investiga a citada comissão.

O diretor do colégio Saint Alipius, Robert Best, o capelão Gerald Ridsdale e os sacerdotes Gerald Fitzgerald, Edward Dowlan e Stephen Farrel integravam nesse centro uma rede de pedofilia na década de 1970, de acordo com os depoimentos.

Ridsdale, com 81 anos de idade atualmente, se sobressaiu entre todos pelo número enorme de vítimas: 54 entre 1960 e 1980, sendo a mais nova de quatro anos de idade. Entre os que sofreram com seus abusos está seu sobrinho David.

Fitzgerald foi o único que escapou de uma condenação judicial porque morreu em 1987, quando era investigado.

As feridas abertas entre as vítimas ainda não cicatrizaram, apesar do tempo que se passou.

Stephen Woods, abusado sexualmente por três sacerdotes, da mesma forma que dois de seus seis irmãos, não se esquece dos fatos.

"Ele me fazia tirar a roupa lentamente enquanto se masturbava por trás da escrivaninha e me dizia que era minha culpa, que eu era ruim, que eu era o demônio", disse Woods sobre os abusos que sofreu quando tinha 11 anos e que foram cometidos por Best, então diretor do colégio Saint Alipius.

Woods também sofreu agressões do padre Dowlan e de Ridsdale, que o violentou em banheiros públicos perto do lago Wendouree, em Ballarat.

Philip Nagle foi abusado pelo padre Farrell em 1974, quando tinha nove anos de idade. Sua lembrança mais viva daquela época remonta à primeira vez que o padre o atendeu na enfermaria e abaixou suas calças para lhe "fazer alguma coisa".

"Quando se levantou, eu estava todo molhado entre minhas pernas e genitais. Muito tempo depois, me dei conta de que tinha ejaculado", relatou Nagle em seu depoimento oficial.

Esses são alguns dos relatos das vítimas de abusos sexuais da Igreja Católica em Ballarat que ainda continuam vivos.

Segundo a organização Broken Rites (Ritos Quebrados em tradução livre), quase 50 menores que sofreram abusos não conseguiram superar o trauma e se suicidaram.

As declarações de Pell semearam na Austrália a dúvida de quanto a Igreja Católica sabia dos abusos sexuais cometidos em Ballarat.

Pell se declarou inocente e negou responsabilidades, mas admitiu que naquele tempo os casos de pedofilia eram encobertos para proteger a reputação da Igreja Católica.

Ao ser questionado sobre a presença do alto número de padres pedófilos juntos em Ballarat, o cardeal, que não é acusado de pedofilia, a classificou como uma "trágica coincidência".

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