EUA acusam formalmente grupo Estado Islâmico de genocídio

Em Washington

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, afirmou nesta quinta-feira (17) que os massacres cometidos pelo grupo jihadista Estado Islâmico (EI) contra minorias religiosas no Iraque e na Síria representam um "genocídio".

"O EI é responsável por genocídio contra grupos religiosos", afirmou Kerry em um discurso no Departamento de Estado, e citou entre essas vítimas grupos cristãos e a minoria yazidi.

O Departamento de Estado está há meses avaliando se irá classificar os assassinatos dos fiéis desses grupos pelo EI como atos de genocídio e limpeza étnica, uma definição legal que pode ter implicações práticas. No entanto, funcionários americanos afirmaram que isso não obrigará o país a intensificar a campanha militar contra os jihadistas.

"Devemos reconhecer que é o que o EI está fazendo com suas vítimas", disse o secretário de Estado, apesar de afirmar que ele as "atrocidades" devem ser julgadas por um tribunal internacional.

Kerry ressaltou que não é juiz ou promotor, mas destacou que os EUA apoiarão "firmemente" os esforços para documentar os atos cometidos pelo EI, citando, por exemplo, a investigação da existência de valas comuns. "Mencionar esses crimes é importante, mas o mais importante é detê-los".

O secretário de Estado afirmou que o grupo jihadista está desde 2014 cometendo crimes deste tipo, o que levou os EUA a organizarem uma coalizão de 66 países que se esforça em "isolar mais, debilitar e acabar com o EI".

"Nosso objetivo é derrotar esse extremismo violento de uma vez por todas, para que essas minorias possam retornar a suas casas", disse o chefe da diplomacia americana.

A designação formal dos crimes praticados pelo EI pode ter implicações práticas, já que os EUA são signatários da convenção da ONU contra o genocídio, aprovada em 1948.

O tratado convoca os países a punir o genocídio, definido como atos "comprometidos com a intenção de destruir, totalmente ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso".

Na segunda-feira, a Câmara dos Representantes dos EUA já tinha aprovado uma resolução que chamava de "genocídio" a violência cometida pelo EI no Iraque e na Síria contra cristãos, curdos, yazidis e outras minorias étnicas.

A iniciativa legal, apoiada por democratas e republicanos, pedia que todos os governos do mundo - incluindo os EUA - a chamar as atrocidades cometidas pelo EI por seu nome: "crimes de guerra, contra a humanidade e genocídio".

"O EI é culpado por genocídio. Utilizou os assassinatos em massa, decapitações, crucificações, violações, tortura e escravidão em sua campanha deliberada para eliminar as minorias religiosas e terminar com sua história", disse após a votação o congressista republicado Ed Royce, um dos defensores da resolução.

Em 1994, o governo de Bill Clinton resistiu a empregar o rótulo "genocídio" no caso de Ruanda por temor que isso o obrigasse a tomar medidas concretas, afirmou em 2002 a atual embaixadora dos EUA na ONU, Samantha Power.

Em 2004, o então secretário de Estado, Colin Powell, qualificou o assassinato de milhares de pessoas em Darfur, no Sudão, como genocídio, a primeira vez que os EUA usaram esse termo durante um conflito em andamento.

No entanto, o Departamento de Estado afirmou que a acusação não obrigava o país a intervir legalmente e representava bem mais um motivo de pressão moral.

Em abril do ano passado, a administração de Barack Obama foi alvo de críticas por se negar a usar o termo "genocídio" para descrever o massacre de centenas de milhares de armênios pelo Império Otomano em 1915, que completava então 100 anos.

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