Barack Obama chega à Cuba das reformas e da "atualização socialista"

Soledad Álvarez.

Havana, 18 mar (EFE).- Pela primeira vez desde o triunfo da revolução castrista, um presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, visitará Cuba, onde encontrará um país comunista que tenta se atualizar com reformas de caráter econômico e social, e cuja população espera ansiosa que o reatamento das relações bilaterais melhore seu complicado cotidiano.

A Cuba que receberá Obama continua sendo revolucionária e anti-imperialista, mas sem Fidel Castro: há quase uma década ele delegou o poder a seu irmão Raúl, o artífice da "atualização socialista" que abriu espaços à economia privada, melhorou as regras para o investimento estrangeiro e eliminou proibições como as viagens ao exterior e a compra e venda de casas e carros.

Esse plano de reformas, cujo objetivo é garantir a sobrevivência da revolução, influenciou decisivamente para a progressiva abertura internacional da ilha que se consolidou com a reconciliação com os Estados Unidos, um acontecimento que pôs o país caribenho nas manchetes do mundo todo.

Obama chega a uma Cuba onde meio milhão de pessoas trabalham no setor privado: são os "cuentapropistas", uma nova classe de empreendedores, microempresários e assalariados autônomos que mudaram a paisagem econômica do país com milhares de pequenos negócios como restaurantes, cafeterias, hotéis, academias e salões de beleza.

Um setor que se abre com muitas dificuldades, como a ausência de mercados atacadistas para se abastecer, os elevados impostos e a limitada lista de atividades para exercer o trabalho autônomo, a maioria de baixo valor agregado e integrada basicamente por serviços simples e manufatura leve, deixando de fora profissões qualificadas.

Com o "cuentapropismo" emergiu uma espécie de classe média: já não é estranho ver famílias cubanas almoçando ou jantando em restaurantes particulares ou comprando nos supermercados de pagamento em dinheiro, onde há anos só se via empresários estrangeiros ou diplomatas.

Mas a mudança também tornou mais visíveis as diferenças sociais em relação àqueles - a maioria da população - cujas receitas procedem do setor estatal, onde a média salarial é de US$ 20 ao mês, uma quantia raquítica diante do progressivo aumento de preços em um país que ainda destina US$ 2 bilhões ao ano para importar alimentos básicos.

"Hoje temos uma sociedade mais diversa, e isso tem prós e contras. E, sobretudo, demanda arranjos de política de sintonia mais fina, tentando adequar recursos do Estado aos segmentos que podem resultar menos favorecidos por esse processo de mudança", disse à Agência Efe o economista cubano Juan Triana.

Na Cuba que espera Obama, após décadas de proibições, os cidadãos já podem viajar ao exterior, se tiverem dinheiro para a passagem e o visto correspondente, sem necessitar de uma permissão do governo, graças à reforma migratória aprovada em 2013, uma das medidas mais importantes do plano "atualizador" de Raúl Castro.

Muitos, no entanto, sonham ainda em emigrar aos Estados Unidos, um anseio que aumentou com a retomada das relações com o país, como mostrou a recente crise dos cubanos retidos na América Central, ante o temor de que Washington revogue a Lei de Ajuste Cubano e os benefícios migratórios que outorga aos cubanos.

Embora o acesso à internet continue sendo um tema pendente e Cuba seja um dos países com menor conectividade do planeta, a abertura de áreas wi-fi por toda a ilha representou um leve alívio para muitos cubanos que, sem poder se conectar em suas casas, fazem isso nas ruas e parques, embora a preços ainda proibitivos para a maioria.

A era da reconciliação com os EUA fez com que os olhos de muitos empresários de todo o mundo tenham se voltado para Cuba e suas possibilidades para o investimento estrangeiro, outro dos grandes projetos do plano de reformas de Raúl Castro.

A nova Lei de Investimento Estrangeiro e o megaprojeto da Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel são as principais iniciativas com as quais Cuba quer atrair capital estrangeiro, mas até o momento conseguiu resultados muito discretos.

Mas não só o bloqueio desanima os potenciais investidores, já que, apesar das novas facilidades, muitas empresas estrangeiras se queixam de que a legislação é ainda rígida em aspectos como a contratação de mão de obra, que é preciso realizar através de agências estatais com as quais se negocia também o salário dos empregados.

Contudo, a "atualização socialista" de Raúl Castro trouxe reformas sem comparação na história da revolução, mas todas no âmbito socioeconômico: Cuba segue regida por um sistema de partido único, o comunista, e segue questionada pela situação dos direitos humanos e pela repressão a dissidentes.

A única reforma política anunciada pelo presidente cubano nos últimos anos foi a limitação de mandatos políticos e estatais a um máximo de dois períodos consecutivos de cinco anos, de modo que Raúl Castro, que completará 85 anos em 2016, deixará o poder em 2018.

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