Guantánamo é pedra no sapato de Obama durante visita a Cuba

Anna Buj.

Washington, 18 mar (EFE).- A base naval de Guantánamo é um empecilho para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante a histórica visita que fará a Cuba e para a qual evitou incluir a devolução do terreno alugado à ilha desde 1903 dentro das negociações para normalizar as relações entre os dois países.

O governo cubano insistiu ao longo deste último ano que o processo de retomada das relações diplomáticas não poderá ser completado até que os EUA suspendam o embargo e devolvam o território ocupado pela base naval "contra a vontade" da ilha, segundo um recente editorial do jornal oficial "Granma".

No entanto, os EUA não deram nenhum sinal, por enquanto, de estarem abertos a devolver o terreno, que Obama não deve visitar durante sua viagem a Cuba entre os dias 20 e 22 de março, a primeira realizada por um presidente americano em 88 anos.

"Não há nenhum plano, nenhuma conversa sobre a qual eu esteja ciente", afirmou poucas semanas atrás o secretário de Estado americano, John Kerry, sobre Guantánamo, que abriga há 14 anos o presídio de segurança máxima para os detidos por terrorismo após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Segundo vários especialistas consultados pela Agência Efe, Obama - que se reunirá com o presidente cubano, Raúl Castro - não pretende abordar nem negociar a devolução de Guantánamo nesta viagem, um tema "controvertido" e "incômodo" que ainda não está sobre a mesa.

"O fato de que isso tenha sido falado pelo governo cubano é uma técnica de negociação, mas seria um escândalo nos Estados Unidos nestas condições. Seria algo mais factível se em Cuba houvesse um governo representado pelo povo", opinou o economista cubano Jorge Sanguinetty.

Para o professor Eduardo Zayas-Bazán, da Universidade do Estado do Tennessee, ainda "não é o momento" de colocar a devolução de Guantánamo sobre a mesa.

"Obama está consciente de que a base naval prejudica a imagem dos EUA no resto do mundo, mas eu acredito que outros problemas mais tangíveis como a perseguição aos dissidentes são temas mais possíveis para esta visita", argumentou Zayas-Bazán.

O fechamento da prisão de Guantánamo foi uma das obsessões do mandato de Obama, que apresentou no mês passado seu plano para encerrar um "capítulo" da história dos EUA e transferir entre 30 e 60 presos para território nacional, algo que foi recebido com forte rejeição pela oposição republicana.

Desde que George W. Bush o abriu, em 2002, o presídio abrigou 780 presos, dos quais transferiu 680 a outros países, enquanto nove morreram em custódia, por causas naturais ou suicídio. Cada preso custou em 2013 cerca de US$ 5 milhões ao erário dos EUA.

A base foi estabelecida em 1898, quando os Estados Unidos ocuparam Cuba militarmente após vencerem a Espanha na guerra hispânico-americana.

As instalações foram de vital importância para o país em momentos-chave da Guerra Fria como durante a crise de 1962, quando os EUA descobriram bases de mísseis nucleares soviéticos em terras cubanas.

Na semana passada, 15 senadores republicanos, entre eles os de origem cubana Marco Rubio e Ted Cruz, defenderam que a base naval continue a ser o lugar para onde devem ser levados os terroristas do Estado Islâmico (EI) que forem detidos pelas tropas americanas.

"O regime de Castro já está roubando o povo americano e agora pede a devolução da base, que foi vital para as operações da Marinha e da Guarda Costeira no Caribe durante mais de um século", disse Rubio.

Situada no extremo sudeste da ilha, a base de 117,6 quilômetros quadrados (49,4 quilômetros de terra firme e o resto de água e pântanos) está alugada indefinidamente pelo módico valor de US$ 4.085 por ano, em um pacto que só poderia ser alterado em caso de acordo mútuo.

A posição dos senadores republicanos sobre Guantánamo, que foi muito debatida no processo de eleições primárias para escolher o candidato à Casa Branca, bate de frente com o atual plano do Pentágono de entregar os combatentes jihadistas que capturarem no Iraque às forças de segurança locais uma vez terminados os interrogatórios.

"Guantánamo é um grande quebra-cabeças para o governo americano", comentou Sanguinetty, que descarta que, por enquanto, ocorra uma cessão parecida ao tratado que devolveu o controle completo do canal do Panamá ao país centro-americano em dezembro de 1999.

"Eu me oporia pessoalmente a isso", disse, por sua vez, o secretário de Estado John Kerry, excluindo assim a base militar do caminho histórico empreendido por Obama em dezembro ao anunciar o reatamento das relações entre os dois países em dezembro de 2014. EFE

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