Ala republicana quer "convenção disputada" para conseguir derrota de Trump

Cristina García Casado

Washington, 20 mar (EFE).- Uma parte do Partido Republicano procura evitar que Donald Trump assegure sua indicação nas primárias para assim escolher seu candidato à Casa Branca em uma convenção disputada, um cenário imprevisível não visto nos Estados Unidos desde 1952.

A caminhada a passos firmes do magnata em direção ao número mágico de 1.237 delegados, a maioria que garante a indicação antes da convenção, tem todo o movimento republicano "anti-Trump" imerso em um intenso debate sobre a melhor maneira de evitar que seja o candidato em novembro.

Este setor se rendeu à evidência de que é matematicamente improvável que o senador Ted Cruz assegure sua indicação nas primárias, já que para isso necessitaria ganhar mais de 80% dos delegados que ainda estão em jogo até junho.

Para o terceiro republicano na disputa, John Kasich, já é impossível atingir esse número e sua aposta é resistir até a Convenção Nacional de julho, onde os delegados escolhidos nas primárias votam no candidato à Casa Branca, com a esperança de que ninguém chegue com a maioria e nem a consiga ser eleito na primeira rodada.

Sua ideia é partilhada por todos os conservadores que consideram que se Trump for o candidato não só sofrerão uma dolorosa derrota nas presidenciais de novembro, como perderão o controle do Senado.

Após o fracasso de Jeb Bush e Marco Rubio, as apostas do "establishment", o único cenário realista para evitar a indicação de Trump é voltar seu apoio a Cruz e Kasich para que arrebatem os delegados suficientes para que o magnata não alcance a metade mais um dos 2.472 em jogo (1.237).

A vitória de Kasich em Ohio nesta semana se revelou uma faca de dois gumes: por um lado negou ao magnata 66 delegados vitais para avançar rumo à indicação, mas por outro beneficia o multimilionário já que sua continuidade nas primárias divide o voto "anti-Trump" entre ele e Cruz.

O cenário de uma convenção disputada está cada vez mais provável já que, se o magnata seguir ganhando com as margens atuais, não alcançará o necessário de 60% dos delegados que estão em jogo para assegurar sua indicação.

Se um candidato alcançar a maioria nas primárias, o cenário mais comum no último meio século, a convenção se limita a ratificar sua indicação em uma só votação na qual só 5% dos delegados são livres para apoiar quem desejam, enquanto 95% devem seguir o que foi decidido pelo voto popular nas primárias.

Se ninguém obtiver a maioria, a convenção passa a ser aberta e, se ninguém conseguir somar uma maioria na primeira rodada com esses 5% dos delegados livres, a convenção se transforma em disputa.

Então é realizada uma segunda votação na qual 57% dos delegados, de mais de 30 estados, passam a ser livres.

Se ninguém alcançar a maioria, passa a uma terceira votação na qual 81% dos delegados são livres e normalmente não é necessária uma quarta rodada.

Neste processo, caótico e imprevisível, podem aparecer candidatos que não concorreram nas primárias ou que concorreram, mas se retiraram por falta de apoio popular.

Segundo as regras vigentes, para que um candidato assegure a indicação não só tem que ter a maioria dos delegados, mas também deve ter ganho mais de 50% dos delegados em pelo menos oito estados, algo que Trump já conseguiu (11).

No entanto, esta e outras regras podem ser trocadas antes do início da votação.

Nem a Trump e nem a Cruz interessa chegar a uma convenção disputada, porque sabem que não contam com o apoio suficiente e temem que será "tirado da cartola" outro candidato.

O magnata já advertiu que se o partido manobrar contra si na convenção, "haverá distúrbios" de seus entusiastas seguidores, enquanto Cruz previu uma "revolta" no "establishment" se for eleito um candidato sem o apoio popular prévio.

O senador só vê com bons olhos uma convenção aberta, ou seja, que nem ele e nem Trump cheguem com a maioria e sejam os únicos que se submetam a uma primeira votação, que o senador confia que se decantará a seu favor graças aos 5% dos delegados livres.

Isso é o que ocorreu em 1976, a última vez que os republicanos chegaram sem indicado a sua convenção, quando o então presidente Gerald Ford se impôs sobre Ronald Reagan na primeira votação.

Os conservadores não viveram desde 1948 uma convenção disputada, um cenário que abre a porta para intrigas políticas dignas da ficção, quando Thomas Dewey necessitou de três votações para conseguir a indicação.

A última vez que o país assistiu a este espetáculo político (as convenções duram vários dias e quando estão apertadas tudo é possível) foi na democrata de 1952, na qual Adlai Stevenson só foi indicado após a terceira rodada.

Apesar dos riscos que implica e a imagem de divisão que projeta uma guerra interna sob todos os focos, o núcleo tradicional republicano parece ter menos medo desse cenário que ao de concorrer pela Casa Branca com um candidato explosivo de retórica xenófoba, ultranacionalista e sexista cuja campanha está rodeada cada vez mais de protestos e incidentes violentos.

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