Gregos ajudam refugiados em memória de seus próprios antepassados

Yannis Chryssoverghis.

Atenas, 20 mar (EFE).- Através de ONGs e iniciativas comunitárias, milhares de gregos ajudam os refugiados que chegam aos montes diariamente às ilhas do mar Egeu.

Os imigrantes recebem desde pacotes de comida até artigos de primeira necessidade, uma solidariedade inédita que surpreende em um país onde o partido neonazista Aurora Dourada conta com o apoio de mais de 6% do eleitorado e onde quase todos as legendas, exceto as de esquerda, costumam fazer declarações xenófobas.

Cenas do partido neonazista distribuindo comida "só para gregos" contrastam com as de pessoas de Lesbos ajudando refugiados recém-chegados. Recentemente, a imagem de uma senhora dando mamadeira a um bebê sírio deu a volta ao mundo, graças a um fotógrafo que estava presente no local e registou aquele momento.

A ação, no entanto, não é excepcional. Esse é apenas um exemplo do que há meses faz parte do cotidiano deste país atingido há sete anos por uma crise econômica sem precedentes: milhares de cidadãos tiraram de onde não têm para oferecer aos quase um milhão de refugiados que passaram pela Grécia no último ano.

Andreas Papaspyrou, prefeito de Konitsa, onde funciona um pequeno abrigo para refugiados, disse recentemente à imprensa local que os moradores "são muito sensíveis ao tema" porque "boa parte de seus antepassados emigrou há 90 anos da Capadócia".

De fato, quase metade dos gregos tem avôs ou bisavôs refugiado. Em 1922, após a derrota do exército grego em uma série de confrontos militares com revolucionários do Movimento Nacional Turco, que pôs fim a um século de guerras greco-turcas, milhares de gregos, que há muitas gerações coabitavam com a população turca na Ásia Menor, foram forçados a instalar-se na Grécia.

Após "a catástrofe", como o acontecimento é conhecido na Grécia, um estado grego com apenas cinco milhões e meio de habitantes teve que admitir quase um milhão e meio de refugiados gregos.

Na periferia de todos os centros urbanos da Grécia nasceram bairros com nomes com o prefixo "Nea" (Nova), como Nea Smyrni (Nova Esmirna), Nea Alikarnassos (o nome grego de Bodrum), Nea Ionia (o nome em grego antigo do litoral turco do Egeu), habitados pelos recém-chegados da Turquia.

A eles se uniram mais tarde os que foram expulsos da Romênia, em 1940, pelo regime fascista de Antonescu; do Egito, em 1956, após a crise de Suez; e de Istambul, em 1955 e em 1964, por causa da crise cipriota.

"De tarde, quando os vizinhos se reuniam para tomar o café, os mais velhos contavam histórias da 'fuga': como tiveram que dar as joias da família aos traficantes que lhes levavam às ilhas, as atrocidades das quais tinham sido testemunhas...", contou à Agência Efe Kyrgiakos, neto de refugiados.

Segundo ele, sua história é idêntica a dos refugiados que desde 2013 chegam todos os dias às ilhas.

"Quando vi na televisão as imagens das lanchas cheias de gente desesperada entendi o que as minhas avós contavam", acrescentou.

Kleoniki, de 87 anos, nascida em Atenas e filha de refugiados, destina mensalmente uma parte de sua aposentadoria ao grupo de Nea Ionia que se encarrega de distribuir comida aos imigrantes.

"Quando minha mãe e minha avó chegaram à Grécia, tiveram que passar meses em barracas de campanha. Meu avô, como os demais homens de seu povo, tinha ficado como refém dos turcos. Ele chegou à Grécia dois anos depois, mas muitos nunca chegaram", disse Kleoniki.

Emilia Kamvisi, de 89 anos, indicada ao Nobel da Paz deste ano, descreveu o que acontece no litoral grego: "Quando os refugiados chegam às praias, eles nos olham e cumprimentam com imenso agradecimento e amor", relatou ela, também filha de refugiados. Ela é a senhora fotografada alimentando o tal bebê e a indicação se deve exatamente a esse ato.

A ajuda dada genuinamente para filhos e netos de refugiados a novos refugiados é um reflexo de que suas respectivas histórias, embora diferentes em tempo e espaço, são uma só: a de sobrevivência. EFE

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