Livro sugere que economistas devem comandar estratégia antidrogas

Luis Lidón.

Viena, 23 mar (EFE).- Quando Tom Wainwright chegou em 2010 ao México, como correspondente da revista "The Economist", começou a perceber que a luta contra as drogas deveria ser mais responsabilidade de economistas do que de generais.

Wainwright publicou recentemente "Narconomics", um livro crítico à atual "guerra contra as drogas" no qual analisa os cartéis do narcotráfico como grandes empresas.

O livro foi lançado em meio ao debate na ONU sobre a luta antidrogas, antes de uma crucial sessão sobre a matéria na Assembleia Geral, em abril.

A ideia de escrever "Narconomics" nasceu quando Wainwright avaliou o valor de um carregamento de 100 toneladas de maconha: as autoridades mexicanas sustentavam que valia US$ 500 milhões, quando na realidade seu valor era de "apenas" US$ 10 milhões.

O primeiro número foi calculado de acordo com o preço de venda da maconha nos Estados Unidos.

"Vi que se tratava de uma loucura: imagina calcular o valor de um quilo de café na Colômbia utilizando os preços de venda de um Starbucks em Nova York", explicou o autor à Agência Efe.

"Portanto comecei a me perguntar o que mais se estava fazendo de errado ao não aplicar os elementos econômicos mais básicos à guerra contra as drogas", acrescentou o jornalista, que agora está baseado no Reino Unido.

Seu livro oferece uma visão surpreendente, ao analisar como os cartéis da droga empregam estratégias empresariais inovadoras: o cartel de Los Zetas, por exemplo, recorre a um modelo similar ao das franquias para se expandir no México.

Assim como em qualquer empresa, as organizações criminosas lamentam a falta de mão de obra, e o pequeno traficante de rua tradicional também se ressente com o surgimento do comércio online e da venda de drogas na "deep web".

Uma das teses principais de Wainwright é que "a guerra contra as drogas" não funciona porque parte de uma ideia equivocada: de que a redução da oferta aumenta os preços e, portanto, diminuiria o consumo.

Desde 1998 "o número de consumidores de maconha e cocaína cresceu 50%, e o de opiáceos quase triplicou", argumentou sobre o fracasso desta estratégia.

"Até agora a guerra contra as drogas esteve muito centrada no lado da oferta: a eliminação de arbustos de coca nos Andes, a luta contra os cartéis no México, prender traficantes de drogas nas ruas de Washington, Londres ou Madri", analisou.

Mas, por um lado, segundo explicou, a demanda por drogas ilegais não responde tanto às variações de preço. Por outro, apesar das grandes altas do preço na origem, o impacto no valor da droga para o consumidor final é mínimo.

"Para fazer um quilo de cocaína são necessárias folhas de coca que na Colômbia valem US$ 500. Nos EUA um quilo de cocaína vale US$ 150.000. Portanto, mesmo que o valor da folha de coca dobrasse, o valor da cocaína só subiria para US$ 150.500", avaliou.

Wainwright afirmou que, segundo alguns estudos, "para cada US$ 1 milhão gasto para combater a oferta na América do Sul, a quantidade de cocaína consumida nos EUA cai dez quilos".

"Mas para cada milhão que os EUA gastaram em educar as crianças a não usar drogas, o consumo diminuiu 20 quilos; e para cada milhão gastos no tratamento de dependente químico, o consumo cai 100 quilos", garantiu.

O analista disse entender a frustração existente na América Latina pelos "desastrosos" resultados da política "proibicionista", e considerou que se o problema fosse visto como um mercado a conter e não como uma batalha a lutar, os resultados seriam melhores.

"A maior parte dos analistas de drogas são especialistas militares ou criminalistas. Acredito que seria melhor que alguns poucos economistas velhos e aborrecidos se envolvessem", afirmou com certa ironia.

Para Wainwright, a melhor solução seria eliminar totalmente a demanda por drogas, mas até que isso não aconteça, "a regulação e a prevenção são a melhor resposta".

"Não posso imaginar que nenhuma droga vendida pela máfia seja mais segura do que pelo governo", o que, além disso, tiraria a renda do crime organizado ao levar a oferta "para o marco legal e regulado da economia".

O autor também se mostrou muito crítico com a banalização do consumo de drogas, sem reparar no custo humano que há por trás dele.

"A política menos pior é a legalização, mas até que isso aconteça, quem compra cocaína está pagando os salários de pessoas na América Latina que decapitam crianças, que sequestram e queimam pessoas vivas", ponderou, antes de lembrar que "os cartéis usam o assassinato e a tortura como parte de seu modelo de negócio".

"É uma incômoda certeza, não uma possibilidade, mas uma certeza, que comprar um grama de cocaína na Europa ajuda a pagar para alguém ser torturado até a morte do outro lado do Atlântico", advertiu.

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