Primeira motorista de ônibus de Gaza rompe estereótipos

Saud Abu Ramadan.

Gaza, 3 abr (EFE).- Salwa Sorour quebrou as tradições mais conservadoras da sociedade palestina com seu trabalho de dirigir um ônibus escolar - ela é a primeira e única motorista da Faixa de Gaza.

Aos 45 anos, ela se levanta diariamente antes mesmo do nascer do sol, liga o micro-ônibus e sai para buscar as crianças que leva para a creche. O trabalho a colocou na mira de conservadores de uma região governada pelo movimento islamita Hamas desde 2007.

"Ser motorista de ônibus em outro país é normal, mas em Gaza é difícil. A maioria das pessoas não tem a mente aberta, nunca saiu daqui", disse ela à Agência Efe.

"O que eu faço não é contrário à religião e não viola a honra, nem as nossas santas tradições", acrescentou.

Salwa disse que sua arma contra a intolerância é a confiança em si mesma e sua perseverança em alcançar metas.

"Em minha opinião, nenhum trabalho é exclusivamente de homem ou de mulher", alegou ela, que também já trabalhou consertando aparelhos eletrônicos e como corretora.

O Escritório Central Palestino de Estatística (PCBS) divulgou em seu último relatório, em março, que o número de mulheres em postos de trabalho que demandam esforço físico representa um quarto do total de mulheres que trabalha. A ampla lacuna faz com que apenas 19,1% das representantes do sexo feminino realizem este tipo de trabalho, ao contrário dos 71,9% dos homens que desempenham profissões tradicionalmente reservadas aos representantes do sexo masculino.

"Um dia, um agente de trânsito me parou, começou a conversar comigo como se estivesse falando com um homem e quando viu meu rosto se surpreendeu. Ficou alguns instantes em silêncio e depois começou a falar o quão difícil devia ser para uma mulher ser motorista de ônibus", recordou.

Quando vai abastecer, também não costuma ser diferente. Salwa conta que, ao chegar, os frentistas do posto de gasolina se espantam.

"Quando percebem que é uma mulher dirigindo o ônibus, me dão prioridade", relatou.

Segundo ela, essas atitudes e comentários mostram a dificuldade que é para as mulheres ganhar espaço nesses setores, mas isso não a intimida. Sua principal motivação está nas crianças que leva diariamente.

"Agora, sou mãe de dezenas de meninos e meninas. Os trato como filhos e eles me adoram, me chamam de mãe", afirmou, com paixão, a motorista, ressaltando que este sentimento maternal não é encontrado em qualquer trabalho.

Nour, de cinco anos, é uma das crianças que usam o transporte escolar.

"Mamãe Salwa conta histórias bonitas para a gente enquanto estamos no ônibus", disse o garoto, enquanto descia do veículo.

Se os olhares e comentários conservadores não abalam a destemida motorista, os problemas mecânicos, sim.

"O mais complicado é quando o ônibus tem problemas mecânicos", afirmou.

Talvez a origem de sua força venha mesmo de sua casa. Criada em uma família na qual os pais não fizeram distinção entre meninos e meninas, ela cresceu com essa ideia.

Saeda, irmã da motorista e proprietária da creche para onde ela trabalha, disse à Efe que de Salwa é um grande exemplo da luta para alcançar a igualdade de gênero.

"As mulheres são extremamente capazes de realizar qualquer trabalho e devem lutar para não permitir que uma sociedade machista monopolize os postos de trabalho na figura do homem", defendeu Saeda.

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