Caçadores de refugiados ou solidariedade: os dois lados da fronteira búlgara

Vladislav Punchev.

Yambol/Belevren (Bulgária), 5 abr (EFE).- Os poucos refugiados que chegam à Europa cruzando a fronteira entre a Turquia e a Bulgária podem ter a sorte de serem recebidos por moradores solidários dispostos a ajudá-los ou dar de cara com patrulhas civis que têm se dedicado a caçar os imigrantes.

Nas imediações de Belevren, uma aldeia entre florestas e colinas de difícil acesso onde só vivem oito pessoas, se aventuram grupos de entre cinco e 15 refugiados do Oriente Médio.

Alguns tiveram o azar de cruzar com Dink Valev, um praticante de artes marciais de 29 anos, que foi notícia na imprensa búlgara por ter detido e amarrado 16 sírios em março do ano passado.

Conhecido agora como "caçador de refugiados", ele defende seu direito de proteger a Bulgária contra o que considera "lixo".

"Não gosto de ter esse apelido porque estou no meu próprio país. Fui atacado e é normal atuar em defesa própria como eu fiz. Também quero defender minha pátria", disse Valev à Agência Efe, em entrevista na garagem de sua casa que fica na cidade de Yambol, a cerca de 60 quilômetros da fronteira.

Valev afirmou que encontrou um grupo de imigrantes, entre eles três mulheres e uma criança, e, após escapar da agressão de um deles, pediu da forma "mais educada possível" que eles ficassem quietos até a chegada dos policiais.

"É um direito civil defender e proteger minha pátria de intrusos como esses sírios, iraquianos, paquistaneses e outros lixos", declarou o "caçador de imigrantes".

O Comitê Búlgaro de Helsinque, uma ONG de defesa dos direitos humanos, avalia a atitude de Valev de outra forma e o denunciou à Justiça por atacar e humilhar os refugiados sem motivos. O homem foi interrogado pela polícia, mas acabou não sendo preso.

De acordo com a ONG, Valev não esconde sua vontade de organizar patrulhas civis para deter os imigrantes que buscam asilo. Uma ideia que está ganhando cada vez mais adeptos.

"Valev semeia o medo entre os refugiados e incita a sociedade búlgara ao repúdio e à hostilidade contra as pessoas que buscam amparo", disse à Efe um dos porta-vozes da organização.

Mas, por sorte dos que fogem da guerra e da miséria, nem todos os búlgaros apoiam a "caça ao imigrante".

"Sempre os ajudamos como podemos. Não temos medos deles, nem os odiamos. Somos os primeiros que eles veem ao atravessar a fronteira da Bulgária e tentamos fazer com que recebam um tratamento humano", contou Petar Mitev, um morador da aldeia de Belevren.

"Ficamos com pena devido ao estado deplorável no qual chegam. A maioria escapa da guerra e não há nada mais terrível do que uma guerra", lamentou Mitev, que cria gado na região e fornece água, comida e roupas aos imigrantes antes da chegada da polícia.

"Não posso ficar indiferente, particularmente em relação às mulheres e crianças que vagam pela floresta sentindo frio e famintos", completou Mitev.

De acordo com ele, conforme avança a construção da cerca que o governo turco está erguendo na fronteira com a Turquia, diminui o número de refugiados que chegam ao país, especialmente vindos de Síria, Iraque e Afeganistão.

A Bulgária teme que o fechamento da chamada rota dos Bálcãs, imposto principalmente por Áustria e Eslovênia, provoque um desvio da onda de imigrantes rumo ao país. Por isso, o governo está acelerando a construção do muro, que terá uma extensão de 160 quilômetros, cinco vezes maior do que o planejado em 2013.

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