Investigadora diz que Panama Papers são janela para "corrupção legal"

Lucía Leal.

Washington, 6 abr (EFE).- Os Panama Papers são uma janela para a "corrupção legal" e provavelmente gerarão mais reformas contra a evasão fiscal, mas também "novos atalhos" para manter o sigilo sobre o patrimônio dos mais poderosos, disse à Agência Efe uma das principais investigadoras dos documentos vazados sobre o gigantesco caso de ocultação de dinheiro que envolve políticos, empresários e celebridades de diversos países.

Em entrevista à Agência Efe, a jornalista argentina Marina Walker, subdiretora do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ, na sigla em inglês), falou sobre o trabalho que coordenou neste grupo independente e que representa, segundo Edward Snowden, o maior vazamento na história do jornalismo de dados.

"É realmente uma janela muito incomum e muito ampla pela qual se pode olhar um mundo secreto", opinou Walker, que trabalhou junto com jornalistas de mais de cem veículos de imprensa para revisar e publicar os 11,5 milhões de documentos que compõem os Panama Papers ("papéis do Panamá"), como o caso foi batizado.

Esses arquivos foram vazados da empresa panamenha de advocacia Mossack Fonseca, especializada na gestão de capitais em paraísos fiscais, jogam luz sobre "a corrupção legal que existe em muitos lugares no mundo" e, em grande medida, o escândalo está no fato de que essas práticas ocultas sejam permitidas, segundo a jornalista.

"É verdade que nem toda empresa offshore (inscrita em um paraíso fiscal) desrespeita a lei, mas vemos que não há grande ato de corrupção no mundo que não tenha um elemento offshore", ressaltou Walker.

Para a subdiretora do ICIJ, chama a atenção a resposta da Mossack Fonseca de que "só cria companhias", quando a investigação "provou que faz muito mais".

"Eles se envolvem com seus clientes, proativamente lhes aconselham formas de esconder dinheiro, formas de sonegar impostos. Em alguns casos em que chegaram à justiça, ativamente ajudaram as pessoas envolvidas a proteger seus patrimônios e dificultaram a vida de muitos promotores", declarou.

"Isso de que só criam companhias me soa muito parecido com o argumento usado pelas fabricantes de cigarro quando diziam 'nós fazemos os cigarros e não temos culpa de que as pessoas fumem. Esse argumento caiu, e hoje em dia essas empresas respondem judicialmente porque seus cigarros matam gente. E eu acredito que, um dia, acontecerá algo similar com a indústria offshore", acrescentou.

Walker ressaltou que a Mossack Fonseca é "uma das maiores incorporadoras de empresas deste tipo no mundo, mas sem dúvida não é a única".

A equipe do ICIJ está "surpresa e muito interessada no impacto da investigação", embora as reações dos políticos e empresários envolvidos "sejam as esperadas".

"É interessante ver muitos dizerem 'não tinha que declarar esse dinheiro' ou 'não tinha ativos'. De repente, todos dizem que não tinham ativos, então criam as empresas nos paraísos fiscais e se metem em toda essa confusão (...) para depois não fazer nada com elas", ironizou.

"Acredito que é importante que os políticos deem suas explicações e que sejam honestos em relação a por que escolheram usar um lugar tão pouco transparente para fazer seus negócios", frisou.

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, já "deu suas explicações" sobre seu vínculo com uma empresa inscrita em um paraíso fiscal, e agora cabe "à opinião pública e aos órgãos de controladoria (decidir) se há um novo capítulo".

"O que nós tínhamos, publicamos, não era demais, não havia grande quantia ou riqueza de informação no que diz respeito a essa empresa à qual estava associado o presidente Macri", afirmou.

As revelações são mais graves no caso do presidente russo, Vladimir Putin, e os documentos ilustram "quais são os mecanismos" que permitem a seus amigos mais próximos ter acesso, "por exemplo, a generosas porções de empresas estatais russas".

O Kremlin acusou na segunda-feira o ICIJ de ser uma fachada para "antigos membros" da CIA e do Departamento de Estado dos Estados Unidos, algo que não preocupa Walker.

"Acredito que não é a primeira vez que (a Rússia) acusa veículos de imprensa de trabalhar para a CIA, portanto não nos tira o sono", apontou a jornalista.

Embora garanta que não lhe corresponde dar "conselhos" sobre as medidas que deveriam ser tomadas à luz destas revelações, Walker argumentou que "há uma tendência reformista que começou timidamente há uns dois ou três anos e que está se intensificando".

"Creio que vamos ver mais reformas, mais transparência. Também vamos ver tentativas para encontrar novos atalhos e novas formas de sigilo. Não sejamos inocentes, há muita gente que ganha muito dinheiro criando e projetando formas de ajudar as pessoas a esconder seu dinheiro", reconheceu.

A equipe do ICIJ, no qual trabalham veículos de imprensa da "maioria dos países da América Latina", está se reforçando com novos jornalistas, entre eles os da agência americana McClatchy, que prepara várias revelações sobre os EUA, mas por enquanto não encontrou conexões com políticos "de alto perfil" no país.

"Ainda falta muito a ser publicado, estamos começando", concluiu Marina Walker.

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