Plano de autossuficiência afrikaner evoca sombras do apartheid

Marcel Gascón.

Pretória, 6 abr (EFE).- Grupos cívicos estão promovendo um projeto separatista para conseguir a autossuficiência do povo afrikaner na África do Sul à margem do governo, uma iniciativa que lembra em alguns setores o segregacionismo do apartheid.

Sob o nome de Toekomsberaad, o plano gira em torno dos principais eixos do Estado: educação, saúde e segurança, que, na visão do sindicato Solidariedade, impulsor da iniciativa, foram descuidados pelo governo.

O projeto pretende criar uma rede exclusiva de apoio aos afrikaners, que representam 5% da população, à margem das políticas de discriminação positiva do governo, que, segundo o Solidariedade, empurram os brancos à alienação cultural, à pobreza ou à emigração ao Ocidente.

O sindicato e seus grupos aliados veem o projeto como a única forma de melhorar a situação de seu povo, já que os partidos políticos que representam este grupo étnico têm um peso muito limitado nas instituições públicas.

Para seus críticos, no entanto, não é mais que um instrumento para perpetuar a segregação racial e os privilégios dos afrikaners, cimentados em séculos de dominação branca e décadas de apartheid.

Um deles é Pieter du Toit, chefe de política do jornal em língua afrikaans "Beeld", um dos mais influentes da África do Sul.

"O Solidariedade não quer perceber que uma pessoa não pode viver em paz se os vizinhos passam fome", declarou à Agência Efe Du Toit, que acusa o sindicato de "chauvinismo racial" e lembra que as soluções do plano estão reservadas aos afrikaners quando a maioria negra continua sendo o grupo racial mais desfavorecido.

"Trabalharemos com qualquer grupo para evitar a decadência do país", declarou, por sua vez, o presidente do sindicato, Flip Buys, que nega que a iniciativa seja uma aposta pelo isolamento.

"Por que nosso 'racismo' é sempre 'política' e nossa 'política' é sempre 'racismo'?", se perguntam os membros do Solidariedade, em referência à discriminação positiva favorável aos negros aplicada pelo governo para atenuar os efeitos das injustiças do passado.

No meio do debate, o controvertido plano de autossuficiência afrikaner já é uma realidade.

"Uma de nossas metas é que as crianças afrikaners tenham uma boa educação", afirmou à Efe Buys, que diz compreender a prioridade sobre a educação da maioria negra discriminada no passado, mas lembra que, segundo vários indicadores estatísticos, 80% de escolas públicas sul-africanas são disfuncionais.

O Toekomsberaad - que começou a caminhar há anos com projetos piloto que agora devem tornar-se de grande escala - trabalha atualmente com 500 escolas públicas de língua afrikaans, nas quais oferece comida e material escolar aos alunos mais pobres e dá formação gratuita e apoia com pessoal adicional os professores que necessitam.

Além disso, criou uma escola técnica onde ensinam vários ofícios e uma universidade que oferece aulas em afrikaans, em um momento em que o movimento estudantil negro reivindica o inglês em todas as universidades públicas para evitar a exclusão.

Na parte de segurança, o Toekomsberaad, financiado com as cotas dos filiados ao Solidariedade, tem estruturas locais que colaboram com a polícia e companhias privadas de segurança para formar patrulhas de vigilância cidadã.

"Não somos uma organização paramilitar e não aceitamos 'cowboys'", salientou Buys, assegurando que frequentemente colaboram com igrejas e outras associações comunitárias negras para manter a segurança.

Para cobrir a saúde, o Solidariedade conseguiu a cessão de espaços em bairros pobres, onde emprega uma enfermeira e um médico aposentado que, com a ajuda voluntária de outros médicos, atendem de graça à comunidade.

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