Retórica sexista de Trump afasta republicanos do eleitorado feminino

Cristina García Casado.

Washington, 6 abr (EFE).- A retórica sexista do pré-candidato Donald Trump prejudica a imagem do Partido Republicano entre o eleitorado feminino, já majoritariamente favorável aos democratas e que representa 53% dos votos nos Estados Unidos.

Os republicanos não conquistam a maioria do voto feminino desde a vitória de George H.W. Bush no pleito presidencial de 1988, década na qual as mulheres começaram a preferir os candidatos democratas.

Essa tendência pode chegar a um mínimo histórico neste ano se Trump vencer as primárias do partido, já que as pesquisas indicam que cerca de 70% das mulheres têm uma imagem negativa do magnata.

O polêmico empresário tem um longo e documentado histórico de comentários depreciativos sobre as mulheres, vistas por ele como objetos do homem e julgadas apenas com base no aspecto físico.

Em duas décadas de explosivas declarações em seus programas de entretenimento, Trump deu notas às mulheres por seus corpos e brincou, em várias oportunidades, sobre a vontade de sair com sua própria filha, Ivanka, porque ela é bonita.

Nos nove meses de campanha, o empresário somou novas polêmicas ao seu "currículo". Sugeriu que a apresentadora da "Fox News" Megyn Kelly foi dura com ele durante um debate por estar menstruada. Depois, disse que os eleitores não votariam em alguém "com a cara" de Carly Fiorina, uma das pré-candidatas republicanas. Por fim, tem usado termos ofensivos para atacar a democrata Hillary Clinton.

Quando o repertório parecia ter acabado, Trump afirmou na semana passada que deveria "haver algum tipo de castigo" para as mulheres que abortam. Porém, se retratou posteriormente da declaração, algo que é pouco comum.

A indignação coletiva foi tão grande que até a ala ultraconservadora do Partido Republicano, liderada por seu rival Ted Cruz, fez duras críticas ao empresário por ter ido mais longe que o movimento antiaborto, que pede punição para quem fornece o serviço e não para as mulheres que o utilizam.

Mais uma vez, a retórica agressiva e a absoluta falta de filtro de Trump fazem com que o empresário pareça mais radical que Cruz, um conservador fervoroso que quer proibir o aborto até nos casos de estupro e incesto.

"Sejamos claros: Donald Trump já disse, Ted Cruz votou a favor disso e John Kasich tornou lei. A liderança republicana está fazendo um ataque total ao acesso à saúde reprodutiva", disse à Agência Efe Dawn Laguens, vice-presidente da Planned Parenthood.

A organização, a maior de saúde reprodutiva no país, está sendo demonizada pelos republicanos em uma luta implacável para que ela pare de receber financiamento federal - como defende Cruz no Senado e como fez Kasich em Ohio, onde é governador.

Até então só Trump fez a ressalva de que a entidade não apenas "pratica abortos" - o discurso pregado pelos rivais -, mas também ajuda muitas mulheres na prevenção e tratamento de cânceres como o de mama.

Essas declarações são quase impensáveis para um candidato republicano em um momento no qual o partido se apoia em eleitores contrários ao aborto e opostos a outras liberdades individuais, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

A opinião pública sobre os dois temas quase não variou nos últimos 20 anos nos EUA e continuam sendo os assuntos que mais dividem o país. De acordo com dados do Pew Research Center, 54% dos cidadãos acreditam que o aborto deveria ser legal em todos ou na maioria dos casos, sendo que há maior aceitação entre as mulheres e pessoas com formação universitária.

A maior parte dos eleitores incondicionais de Trump são homens brancos sem curso superior, um grupo que pode ser suficiente para vencer as primárias republicanas - nas quais as mulheres não são maioria -, mas não para vencer o pleito presidencial.

"Seus números entre as mulheres são impressionantemente desfavoráveis. Historicamente, não consigo lembrar em ninguém com piores números. Mas, historicamente, não houve ninguém como Donald Trump", comentou o diretor-adjunto do setor de pesquisas da Universidade Quinnipiac, Tim Malloy.

Um dos dados menos divulgados das eleições americanas é que as mulheres brancas são favoráveis aos republicanos, mas o apoio do grupo não tem sido suficiente para compensar a arrasadora preferência democrata entre as crescentes minorias.

O grande temor dos republicanos é que, se Trump for o candidato do partido, as mulheres brancas com ensino superior abandonem o partido e votem em Hillary Clinton, considerada como "tolerável" por muitos republicanos moderados.

Sem essas eleitoras essenciais, os republicanos perderiam em estados vitais para recuperar a Casa Branca, como Virgínia, Ohio, New Hampshire e Flórida.

As mulheres, que são mais numerosas e participam mais das eleições que os homens, podem dessa forma voltar a acabar com o sonho presidencial dos republicanos. Nas eleições de 2012, Barack Obama obteve 56% dos votos femininos contra 44% do então candidato do partido, Mitt Romney.

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