Comprar só o necessário: o primeiro passo para erradicar a fome até 2030

Pablo L. Orosa.

Cidade da Guatemala, 8 abr (EFE).- Erradicar a fome em 2030 pode parecer uma utopia, mas o Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU tem uma estratégia para atingir a meta vista como bastante ousada: combater os efeitos da mudança climática, formar as comunidades vulneráveis e convencer as sociedades desenvolvidas sobre a necessidade de um consumo responsável.

"Como clientes, sabemos que compramos muito mais do que podemos consumir. Precisamos de um novo compromisso, que nasça de nós mesmos, para comprar o que necessitamos ao invés do que queremos", afirmou em entrevista à Agência Efe a diretora-executiva do programa das Nações Unidas, Ertharin Cousin.

Com o verbo educar enraizado em seu discurso, Cousin, que assumiu a direção do PMA em abril de 2012, tem consciência de que a equação da fome tem muitas incógnitas: "É um problema que pode ter diferentes respostas dependendo de cada comunidade".

Se nos países desenvolvidos os alimentos são jogados no lixo por datas de vencimentos muito curtas, por estarem mal empacotados ou, simplesmente, por uma aparência inadequada, nos locais onde há fome o desafio é exatamente a conservação.

"Na África Subsaariana, 40% das colheitas são perdidas pela falta de armazenamento e refrigeração adequadas. Esses problemas também existem na América Latina", apontou a diretora do PMA.

Aprimorar os sistemas de conservação nos países em desenvolvimento e conscientizar o Ocidente sobre a necessidade de um consumo responsável é uma receita simples para acabar com o esbanjamento. Pôr fim a essa prática, porém, é o primeiro passo para erradicar a fome em 2030.

"Acabar com a fome em 2030? A resposta é sim. Não é um sim fácil, é um sim que requer que toda a comunidade internacional não só se comprometa, mas que invista recursos para apoiar as mudanças necessárias e que as comunidades rurais se adaptem à mudança climática", destacou a diretora-executiva do PMA.

No ano passado, na aprovação dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU, o mundo se comprometeu a "não deixar ninguém para trás", a transformar a erradicação da fome em instrumento de paz.

A Cúpula da Mudança Climática de Paris foi "mais um passo" para o objetivo, lembrou Cousin, já que o programa ganhou US$ 100 milhões em recursos para apoiar as comunidades mais vulneráveis.

"Já há um compromisso da comunidade internacional e agora temos que colocar esse acordo em prática em nível local. Sabemos como fazê-lo, o que necessitamos é o compromisso público para conseguir os investimentos em programas e atividades que, ao longo dos anos, garantam as mudanças para atingirmos o objetivo", ressaltou.

As estratégias são claras: educar e levar os alimentos onde não há. É preciso fornecer educação, porque se as pessoas não têm o hábito de comer adequadamente, não terão uma alimentação saudável.

Colocar o foco da ajuda contra a desnutrição das grávidas e das crianças, na chamada "janela dos 1.000 dias", também é uma das etapas a serem vencidas, destacou Cousin. "Temos que mudar suas rotinas higiênicas, conscientizando as populações vulneráveis do quão importante é, por exemplo, lavar as mãos", disse a diretora-executiva do PMA, que comanda um esquadrão de 13.500 pessoas para lutar contra a fome em 80 países.

Mais de 80 milhões de pessoas são atendidas pelos programas da ONU, dos quais 80% residem em zonas vulneráveis à mudança climática, onde as inundações e as secas são tão perigosas como as guerras.

"Estamos comprometidos a apoiar as medidas que garantam que essas pessoas que não têm o luxo de poder fugir dessas áreas vulneráveis tenham pelo menos a possibilidade de manter suas vidas e alimentar seus filhos apesar dos impactos da mudança climática", afirmou Cousin.

Muitas dessas regiões, como a América Central, enfrentam agora um novo inimigo climático: o El Niño. Há quatro anos, por exemplo, falta chuva no "corredor seco" da Guatemala. Agora, o fenômeno volta a afetar as comunidades, estendendo o período de seca.

"No fim, para as pessoas, é uma seca que as impede de ter acesso à comida. Para eles, a miséria sempre tem o mesmo nome", destacou a diretora-executiva do PMA.

Uma miséria que se estende pelo mundo, propagando as guerras e os confrontos. "A falta de alimentos está conectada com os conflitos. A Síria é um exemplo disso", garantiu Cousin.

Iêmen, Síria, Sudão do Sul. Locais nos quais o desafio não é sequer a educação ou a qualidade dos alimentos, mas simplesmente dar o que comer às pessoas que são vítimas de conflitos políticos.

"Mudança climática ou guerras? É melhor morrer rápido ou morrer devagar?", questionou Cousin. "O que precisamos, na realidade, é evitar essas mortes".

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