Mossack e Fonseca, a dupla que desafiou as finanças mundiais

María M. Murr.

Cidade do Panamá, 8 abr (EFE).- Jürgen Mossack e Ramón Fonseca, os proprietários do escritório panamenho que está há uma semana monopolizando os jornais de todo mundo após a publicação dos chamados Panama Papers, entrarão para a história como a dupla de advogados que desafiou as finanças mundiais.

Durante décadas, os dois guardaram cautelosamente os segredos monetários de centenas de milionários na sede principal de sua empresa que, em vez de ter como sede alguns dos chamativos arranha-céus da capital do Panamá, está instalada em um prédio modesto do centro bancário do município.

Mas quem são e como estão atuando os homens que comandam a empresa que ganhou as manchetes mundiais com suas offshores?

Ramón Fonseca é quem mais se submete a uma quase frenética exposição midiática: um multifacetado advogado, de 64 anos, que quase se tornou padre, mas acabou se apaixonando pelo mundo das leis.

Ele começou a carreira com um pequeno escritório e, em 1986, após seu escritório se fundir com a empresa de Mossack, seu fiel companheiro de batalhas, el se transformou em coproprietário do quarto maior escritório do mundo em criação de companhias offshore.

O próprio Fonseca disse em uma ocasião que a companha da qual é sócio é "um monstro", como mostra um dos relatórios do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ, na sigla em inglês), a organização que revelou o escândalo.

Atualmente, a Mossack Fonseca tem mais de 500 funcionários e 40 escritórios, três deles na Suíça e oito na China. Em 2013, a companhia teve um faturamento de mais de US$ 42 milhões.

Enquanto ajudava os mais ricos e poderosos do mundo a ocultar suas fortunas em diversos paraísos fiscais, Fonseca tentava tranquilizar sua consciência na política e outras atividades.

Até o mês passado, ele presidia o governista Partido Panamañista e era ministro conselheiro no governo do presidente Juan Carlos Varela, postos que renunciou para se defender, no Brasil, de envolvimento com casos de corrupção investigados pela operação Lava Jato.

Transformado hoje em "mito" da opacidade financeira, Fonseca foi, entre 2004 e 2007, membro do conselho assessor da filial panamenha da Transparência Internacional, organização que se dedica a denunciar a corrupção política em todo mundo.

O panamenho também foi assessor jurídico da Conferência sobre o Desenvolvimento Comercial da ONU em Genebra, na Suíça, e fundou e dirigiu o Meu Banco, uma entidade financeira já extinta que, segundo ele próprio conta em seu site, estava dirigida a "pessoas com meios econômicos limitados".

Sua carreira política e empresarial transcorreu em paralelo com sua verdadeira vocação: a literatura. Amante das letras, tem publicadas várias obras de teatro e vários romances.

Como uma espécie de premonição, Fonseca venceu em 1994 o Prêmio Nacional de Literatura Ricardo Miró com "A dança das borboletas", um romance que aborda "a estreita relação entre o poder e a moral" no Panamá atual. Palavras escritas em seu site e um paradoxo da vida.

A outra parte da dupla, Jürgen Mossack, está fora de combate desde domingo, dando apenas algumas declarações a um veículo britânico. Pessoas próximas dizem que ele odeia falar em público e cumpre à risca o estereótipo de um alemão: sério e reservado.

Fonseca nasceu em 1948, em uma cidade próxima a Nuremberg (Alemanha) e no início dos anos 60 aterrissou com sua família no Panamá. De acordo com diversos documentos que o ICIJ teve acesso, o pai do agora advogado era um nazista que pertenceu a da Schutzstaffel (SS) e, após a derrota alemã, foi feito prisioneiro pelos aliados. No entanto, posteriormente ele se tornou informante da CIA e, provavelmente, também dos serviços secretos alemães.

Mossack faz parte do Clube União, a associação mais seleta do Panamá, onde se movimentam as engrenagens desse país de 4 milhões de pessoas.

Além do escritório, o alemão tem várias plantações de teca e negócios imobiliários, como indicam os relatórios do ICIJ.

Está óbvio que, após o ocorrido - e tudo que ainda está por vir -, Fonseca tem material suficiente para escrever um novo livro. Será que ele vencerá outra vez o maior prêmio da literatura do Panamá? EFE

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