Dilma volta a falar em "golpe" enquanto Senado inicia trâmite do impeachment

Eduardo Davis.

Brasília, 19 abr (EFE).- A presidente Dilma Rousseff reforçou nesta terça-feira sua tese de que o país está sob a ameaça de um "golpe" que semeará desestabilização, enquanto o Senado iniciava o trâmite para definir se ela responderá a um julgamento que pode lhe custar o cargo.

Desta vez, a governante falou apenas com correspondentes estrangeiros, perante os quais reiterou seus argumentos contra o processo e insistiu em apresentar-se como vítima de uma "conspiração" que tenta acabar com os programas sociais aplicados durante sua gestão.

"Fizemos um ajuste fiscal muito forte", destacou, em alusão às medidas adotadas para enfrentar a crise da economia nacional, mas ressaltou que a austeridade adotada pelo governo "preservou todos os programas sociais" e evitou sufocar os mais pobres.

"Foi uma decisão difícil, mas fruto de uma convicção", apontou Dilma, que se disse convencida que se o "golpe" prosperar, os programas sociais serão suprimidos.

Nos últimos dias, fontes ligadas ao vice-presidente Michel Temer disseram que os programas sociais são uma "conquista" dos brasileiros e serão mantidos.

"Eu acredito que os golpistas estão vendendo terrenos na Lua", declarou a presidente sobre essas versões.

"Precisamos entender que esse processo (de impeachment) não vai trazer estabilidade política ao país, porque rompe a base da democracia", e, segundo Dilma, "sem democracia" não se poderá "impulsionar o crescimento econômico".

A presidente voltou a negar as acusações formuladas contra ela, que se referem a manobras fiscais irregulares para maquiar os resultados do governo nos anos de 2014 e 2015, e sustentou que se trata de práticas contábeis usadas por outros governos.

"Não há dolo, não há dinheiro desviado, não há corrupção", disse várias vezes a presidente, que chegou a afirmar que em todo o processo contra ela há um "componente forte" de machismo.

"Disseram que estou nervosa, histérica, desequilibrada e até insinuaram que sou autista", criticou Dilma, que assegurou que "isto não aconteceria se o presidente fosse um homem".

Apesar das declarações de Dilma, o trâmite para um eventual julgamento político continuou o caminho constitucional e chegou hoje ao Senado, depois que neste domingo foi aprovado na Câmara dos Deputados por uma clara maioria de 367 votos frente a 137.

O trâmite começou com a leitura do relatório enviado pela Câmara, o que abriu um período de 48 horas para que os partidos representados no Senado designem os 21 membros de uma comissão especial que analisará as denúncias.

Essa comissão, que deve ser instalada no próximo dia 26, debaterá o assunto durante dez sessões e também elaborará um relatório que será discutido pelo plenário do Senado.

"Se os partidos designarem os membros da comissão antes que passem essas 48 horas, a instalação poderia ser antecipada", disse hoje o presidente do Senado, Renan Calheiros, mas já esclarecendo que algumas legendas já adiantaram que usarão esse prazo.

Se o plenário do Senado respaldar a abertura do processo de impeachment, Dilma será afastada do cargo enquanto durar o processo e será substituída por Temer durante os 180 dias que pode durar o trâmite.

Caso a destituição seja confirmada pelo Senado, Temer, que quebrou qualquer relação com Dilma, completará o mandato que termina em 1º de janeiro de 2019.

Temer se recluiu em seu domicílio particular de São Paulo, no qual recebeu vários políticos e economistas, o que foi interpretado como um primeiro passo para formar sua eventual equipe de governo.

Na porta de sua casa, o vice-presidente deu hoje breves declarações a jornalistas e garantiu que esperará "de forma muito silenciosa e respeitosa" a decisão do Senado.

"O Senado dá a última palavra sobre a matéria e, portanto, seria inadequado que dissesse qualquer coisa antes", afirmou.

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