Partido Comunista de Cuba recorre à ideologia perante nova estratégia dos EUA

Sara Gómez Armas.

Havana, 19 abr (EFE).- Com a porta aberta a uma passagem de bastão, mas sem mudanças em sua cúpula, o Partido Comunista de Cuba encerrou nesta terça-feira seu 7º Congresso, de linha continuísta com as reformas econômicas, mas marcado por um recuo ideológico e sem abandonar a retórica anti-imperialista perante a mudança de estratégia dos Estados Unidos.

Nos quatro dias de conclave foram ouvidas menções ao "caráter irrevogável" do socialismo e uma frontal rejeição a um retorno ao capitalismo apesar dos espaços abertos ao setor privado, considerado por alguns militantes como "vulnerável" às ações que fomentam a "subversão".

O próprio Raúl Castro advertiu sobre a nova política dos EUA em relação à ilha ao mencionar "a influência de poderosas forças externas" que apostam no "empoderamento" do setor privado para "gerar agentes de mudança na esperança de acabar com a revolução e o socialismo em Cuba".

"O tom e o conteúdo foi garantir o legado do passado e bloquear mudanças ideológicas", declarou à Agência Efe sobre o discurso do conclave o presidente da Academia de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Harvard, Jorge Domínguez.

O acadêmico cubano-americano detalhou que nos documentos aprovados no Congresso "não se aceita inserir o adjetivo democrático junto ao nome socialista", nem há menção alguma à sociedade civil.

O líder da revolução cubana, Fidel Castro, símbolo durante décadas da luta contra o imperialismo ianque, reapareceu hoje no encerramento do conclave, ocasião na qual lembrou os motivos que lhe levaram a se tornar socialista e comentou que, embora para todo o mundo chegue a hora de morrer, "as ideias dos comunistas cubanos sobreviverão".

Para o conhecido dissidente Manuel Cuesta-Morúa, alinhado com a oposição mais moderada dentro da ilha, o que foi visto neste 7º Congresso mostra a "recuperação regressiva do velho discurso anti-imperialista", uma reação "tardia" à visita no mês passado do presidente americano, Barack Obama, que encorajou o povo cubano a decidir seu próprio futuro.

"O discurso de Obama tocou fundo na população cubana e mostrou ao partido o quão longe estão das pessoas. Suas palavras tiveram muita mais transcendência que as de Raúl Castro neste Congresso, que se supõe que é o acontecimento político mais importante de Cuba", opinou.

Segundo Cuesta-Morúa, os cubanos foram muito mais receptivos à mensagem "mais próxima e moderna" de Obama, o que pegou de surpresa os comunistas cubanos, que efetuam agora uma "ofensiva ideológica" que começou com o artigo "Irmão Obama" de Fidel Castro, do último dia 28 de março, no qual afirmava que "Cuba não precisa que o império lhe presenteie nada".

No entanto, o acadêmico cubano Esteban Morales, membro do Partido Comunista, nega esse recuo ideológico e considera que em Cuba "nunca se abandonou essa retórica" já que ainda persistem "muitas dúvidas" na nova relação com EUA, nação que "modificou sua estratégia, mas não seu objetivo de encorajar uma mudança política na ilha".

"Não devemos baixar a guarda porque ainda não houve nenhuma mudança substancial na relação com os EUA, além de um ambiente mais cordial e a disposição a dialogar", esclareceu.

Apesar do rearmamento ideológico contra o "inimigo do Norte", expressão que também se escutou no conclave comunista, o 7º Congresso iluminou futuras mudanças, que serão concretizadas nos próximos anos, que apontam para uma renovação geracional das estruturas de poder, tanto no partido como no governo.

O plenário do Congresso aprovou a proposta de Raúl Castro de impor limites máximos de idade nos órgãos de governo do Partido - de 60 anos para o comitê central e de 70 para o Secretariado e o Birô Político -; mas esses limites não entrarão em vigor até o próximo Congresso de 2021, e persiste o enigma de que caras tomarão o bastão da liderança em Cuba.

"Essa mudança, que está por ver-se, implica em um compromisso com uma substituição geracional preparada do lado de dentro", declarou Domínguez.

No novo Birô Político se mantêm nomes da "velha-guarda" e do círculo de Raúl Castro; embora hoje tenham entrado cinco novos membros, que provêm do mundo acadêmico e de organizações sociais, três deles mulheres.

No entanto, para Domínguez, a chave do "revezamento preparado" que se está forjando sutilmente dentro do Partido Comunista está nos quatro membros do Birô anterior que foram mantidos, nascidos entre 1958 e 1964, que têm "mais experiência" política que esses novos integrantes.

Estas "caras da mudança" são o atual primeiro vice-presidente do governo, Miguel Díaz-Canel; o chanceler Bruno Rodríguez; o ministro da Economia; Marino Murillo, considerado o czar das reformas da "atualização" socialista; e Lázara Mercedes López, a secretária do partido em Havana e vice-presidente do Conselho de Estado.

Além disso, o novo Comitê Central ampliado para 142 membros, principal órgão do partido, ficou rejuvenescido ao diminuir a média de idade para 54 anos e contar com 44% de mulheres.

Para Cuesta Morúa, estas são "mudanças cosméticas" de algumas caras e nomes para que no final "tudo siga igual", com a mesma gente na alta direção do partido e do governo; e com a incerteza de quem substituirá à geração histórica da revolução.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos