Após sismo, equatorianos passam as noites reunidos por proteção e distração

Cynthia de Benito.

Manta (Equador), 20 abr (EFE).- Com medo de que novas réplicas do terremoto do último sábado peguem todos de surpresa durante o sono, os moradores da cidade equatoriana de Manta fizeram da noite um momento para compartilhar entretenimento e preocupações.

Os cenários vão desde um beco estreito e escuro, rodeado de escombros, a uma quadra de basquete, assim como parques ou até um carro. Em comum apenas o fato de que se sentem mais seguros ali juntos, algo fundamental após as centenas de mortos deixadas pelo terremoto de magnitude 7,8 do sábado, embora saibam que as condições sejam precárias.

"Seguro 100% não é, mas estamos melhores aqui do que em casa", declarou à Agência Efe Piedad Delgado, uma das moradoras.

Desde sábado, ela dorme todas as noites em uma quadra de basquete ao lado da delegacia, aonde chegou acompanhada de quatro familiares e pelo menos 50 moradores.

A concentração aqui é uma das maiores da cidade, onde ninguém sabe ao certo se existe um abrigo fixo para ficar ou se convém buscar simplesmente um espaço ao ar livre. No final, muitos preferem ficar perto da casa de algum parente e dormir na rua, na porta de casa, sempre perto de seus pertences.

É por isso que todas as noites as ruas se enchem de pequenos grupos que compartilham um espaço familiar. "Eu moro aqui do lado", confirmou Piedad.

Com o terremoto, o teto de sua casa cedeu e afundou uma das paredes. Agora, sentada em um colchão no meio da quadra, ela diz estar "triste", mas mais entretida do que se estivesse em casa.

A poucos metros dela, alguns adolescentes jogam cartas, as crianças brincam entre gargalhadas e uma mulher, deitada em seu colchão, lê a Bíblia. A sensação, de fato, é de relaxamento e trégua.

"Aqui todos se conhecem e existe respeito. Você pode conversar sobre suas coisas particulares, se distrai. Claro que falamos do terremoto, mas é outra coisa", relatou à Efe Luis Arturo Erazo, que ocupa uma das laterais da quadra com sua família de cinco pessoas.

Luis e a família também estão aqui desde sábado porque o filho de dois meses não dorme no escuro, questão que foi solucionada com uma pequena rede instalada entre duas árvores para embalar o neném. O local não é dos mais confortáveis, mas ele concorda com Piedad que a companhia ajuda, embora às vezes, entre uma conversa e outra, o medo volte e traga certo desânimo.

"Às vezes, alguém diz que conhece um especialista em terremotos, e que alerta que é preciso se defender porque vem outro tremor grande ou um tsunami, mas a imprensa e o governo já descartaram isso", comentou.

A luz foi reestabelecida há pouco mais de um dia, e isso tranquiliza os moradores perante a possibilidade do aparecimento de alguns ladrões, já que várias lojas foram saqueadas, e existe o temor de que esses bandos possam surgir enquanto as pessoas dormem. Outros driblam esse perigo passando a noite em seus carros, uma opção para não sentir a fria brisa que chega com a madrugada.

Na quadra ou no carro, o que ninguém parece estar disposto a fazer é voltar para casa. Melhor juntos do que separados, pensam os moradores, decididos a ficar nesta configuração enquanto durar o medo de um novo terremoto.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos