Montenegro completa 10 anos de independência com poucos motivos para celebrar

Luis Lidón.

Podgórica, 27 abr (EFE).- Em maio de 2006 nasceu um novo Estado na Europa, Montenegro, mas pouco mudou de fato: o mesmo partido, acusado de corrupção e clientelismo, segue no comando do país uma década depois, enquanto ativistas esperam que o processo de adesão à União Europeia (UE) impulsione as reformas.

Montenegro é um caso único nos Bálcãs. O Partido Democrático dos Socialistas (DPS) está no governo há mais de 25 anos. Nunca houve uma mudança no poder desde a queda do comunismo, e o primeiro-ministro, Milo Djukanovic, acumula mais tempo em posições de comando do que qualquer outro líder regional.

Djukanovic, um camaleão político que passou de fiel aliado do falecido ditador Slobodan Milosevic no início dos anos 90 a aluno dedicado da UE e da Otan, foi quem levou o país à independência da Sérvia em um referendo em 21 de maio de 2006.

O DPS é um dos partidos mais organizados do sudeste da Europa, possui mais de 100 mil filiados e simpatizantes registrados em um país de apenas 625 mil habitantes.

As acusações de clientelismo, nepotismo e corrupção são constantes no país, pouco maior em extensão que Porto Rico.

"O governo controla de forma total o trabalho na administração pública, desde os altos funcionários até quem limpa os edifícios públicos", declarou à Agência Efe Marko Sosic, um pesquisador do laboratório de ideias Alternativa.

O setor público representa um terço dos empregos do país, que unido aos trabalhos gerados pelos oligarcas próximos ao poder e o voto dos aposentados, suscetíveis à mensagem do medo de que se outros dirigirem o país cortarão suas aposentadorias, formam a base de um sistema tachado de clientelista.

"Se você critica o governo, se arrisca a não encontrar trabalho. Inclusive sua família pode ser prejudicada", explicou à Efe um estudante de Economia que pede para ser identificado apenas como Mihailo.

Os defensores de Djukanovic, e não poucos de seus críticos, veem nele um líder inteligente, que soube preservar a estabilidade e que jamais usou a carta da polarização em Montenegro - uma sociedade multiétnica - o que contrasta com a Bósnia e Kosovo.

O turismo representa 20% do Produto Interno Bruto (PIB) de um país com um salário médio de 470 euros (o equivalente a cerca de R$ 1.830), estagnado há oito anos. São poucas as indústrias e muitos jovens migram por falta de oportunidades.

Maja Raicevic, diretora de uma ONG que luta pela igualdade de gênero, afirma que a elite montenegrina usou o patriotismo da independência para tomar o controle do governo.

Os ativistas acreditam que o processo de adesão à UE é a única forma de promover reformas no país, mas temem que a necessidade de uma "história de êxito" nos Bálcãs faça Bruxelas não ser tão exigente, já que os países vizinhos, como Albânia, Bósnia, Sérvia, estão em pior situação política.

"A UE e a comunidade internacional cometeram um grave erro nos Bálcãs. Depois da guerra, eles estavam obsessivos com a estabilidade, e agora temos como resultado líderes muito estáveis e autocráticos", comentou à Efe Daliborka Uljarevic, diretora da ONG Centro para a Educação Cívica.

Entre as reformas já promovidas em Montenegro, o principal destaque é a criação, em julho de 2015, de uma promotoria especial contra a corrupção, depois de a Comissão Europeia ter criticado a falta de avanços nesse setor.

A primeira vítima dessa promotoria foi Svetozar Marovic, do alto escalão do DPS e ex-presidente da extinta Sérvia e Montenegro, preso por suspeitas de abuso de poder.

Mas a autêntica prova de fogo será se esse novo órgão terá capacidade para investigar familiares de Djukanovic envolvidos em vários escândalos na privatização de empresas e no resgate de um banco com dinheiro público.

Vanja Calovic, uma das ativistas mais prestigiadas do país e que foi vítima de uma campanha suja da imprensa sensacionalista próxima ao governo, está há anos denunciando a corrupção.

Calovic critica que as mesmas pessoas que estiveram ligadas às operações de contrabando de tabaco com organizações mafiosas no fim dos anos 90 seguem à frente das forças de segurança, o que desperta o temor entre os cidadãos do país.

"Queremos uma sociedade aberta e livre, na qual os cidadãos não tenham medo de seu próprio governo", defendeu a ativista.

"Djukanovic é um ditador muito sofisticado. Não é uma dessas ditaduras brutais como a Coreia do Norte, mas não se pode fazer nada neste país sem fazer parte do partido", lamentou.

"Não se pode ter uma vida decente sem ser acossado por distintas instituições e nada indica que será algo que passará em breve", concluiu Calovic, que dirige um centro que revela mais casos de corrupção do que toda a imprensa montenegrina.

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