Camponeses colombianos mantêm acordo de paz com Farc e governo há 30 anos

Marisol Larrahondo B.

La India (Colômbia), 28 abr (EFE).- Camponeses do nordeste da Colômbia fizeram há quase 30 anos um ato de resistência civil aos diferentes grupos armados que castigavam a região e conseguiram um pacto que, desde então, permite que eles vivam em paz, um modelo que hoje esperam expandir para o restante do país.

Um dos protagonistas desta história é Luis Norberto Serna, que, como muito de seus companheiros que fazem parte da Associação de Trabalhadores Camponeses do Carare (ATCC), viveu a violência do conflito e hoje pode contar como essa página foi superada.

Próximo a completar 60 anos, com chapéu e um poncho dobrado sobre o ombro, típico dos camponeses desta região do departamento de Santander, Serna sorri, embora seu rosto e mãos cheias de calos refletirem a dureza de seu trabalho.

Passaram-se muitos anos, desde 1987, quando os primeiros diretores da ATCC decidiram enfrentar a situação com os grupos armados que castigavam a região. Serna se lembra do que chama da "maior conquista" alcançada pela associação.

"Nos reunimos com os três, o Exército, a guerrilha e os paramilitares, todos inimigos, e chegamos a um diálogo onde se acertaram as coisas. Assinamos como se fossem testamentos de respeito e, desde então, começamos a ter paz e calma na região", revelou Serna em entrevista à Agência Efe.

Ele se recorda também que tanto o Exército com as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) acusavam os camponeses de auxiliar à guerrilha. "Chegavam 20 ou 50 homens armados a nossa casa e não podíamos expulsá-los. Estávamos indefesos", afirmou.

Mas as coisas mudaram para os habitantes da região do Carare, composta pelos municípios La Belleza, Sucre, Peñón, Bolívar, Cimitarra e Landázuri, que pertence à aldeira de La India.

Em 1987, os primeiros líderes da ATCC conversaram os chefes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para dizer que não aceitaram mais a imposição de condições. Caso eles quisessem matar os membros da associação, que o fizessem de uma vez.

Para a surpresa de todos, as Farc aceitaram o pedido e se comprometeram a não mais matar camponeses, nem roubar suas provisões, enquanto eles mantivessem sua posição independente e zelassem pela paz na região.

Um processo similar ocorreu com as AUC e com o Exército, com quem também deixaram os camponeses viverem tranquilos.

"E realmente a situação melhorou. Agora temos autonomia. Se chega um soldado e come uma galinha sem permissão, podemos cobrá-lo. O mesmo ocorre se é um paramilitar. Podemos denunciá-los publicamente e eles nos atendem, porque hoje em dia exigimos nossos direitos", explica Serna.

Por essa iniciativa, a ATCC obteve em 1990 o chamado "Prêmio Nobel da Paz Alternativo", mas, neste mesmo ano, vários membros da associação foram assassinados junto com a jornalista Silvia Duzán, quando a acompanhavam na gravação de um documentário para a "BBC".

Apesar do revés provocado pelo ataque, a ATCC seguiu adiante, e Serna se mostra orgulhoso deste trabalho.

"A essa altura da minha vida, não tenho medo de ninguém. Deixamos o medo longe desde que falamos com os grupos armados, e eles nos deixaram em paz. Nos unimos para ter mais força", afirmou.

As conquistas da associação continuam. Na última sexta-feira, por meio da Unidade para a Atenção e Reparação Integral às Vítimas da Colômbia, a ATCC recebeu máquinas agrícolas dentro de um processo de reparação coletiva realizado pelo governo do país.

São 19 máquinas que poderão ser usados nos seis municípios que foram a região do Carare, atualmente habitada por 9 mil famílias.

"Estamos gratos por esta doação que o Estado nos está dando, mas ainda não é o fim, porque nos falta muito para recuperar a região", avaliou Serna, que espera que os diálogos entre o governo e as Farcs sejam concluídos o quanto antes.

"Sabemos que o governo tem muita oposição porque alguns não querem, mas, se não houver diálogo, não há paz, nem tranquilidade, embora, claro, paz não haverá nunca, mas pelo menos haverá calma", disse.

Serna destaca que se as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN) entregarem as armas, terão que apoiar o governo para "eliminar os grupos que estão surgindo, sejam bons ou maus".

"O objetivo final é a paz. Havendo paz, há desenvolvimento, tranquilidade. Há de tudo", conclui Serna.

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