Coreia do Norte prepara Congresso que pode mudar rumo econômico do país

Ramón Abarca.

Pyongyang, 28 abr (EFE).- A Coreia do Norte vive imersa nos preparativos do VII Congresso do Partido dos Trabalhadores, o primeiro a ser realizado em 36 anos, e que será realizado em 6 de maio, um acontecimento político que pode mudar o rumo econômico da fechada ditadura.

Em intenso isolamento internacional, o regime de Kim Jong-un pode anunciar um novo plano de desenvolvimento econômico e inclusive começar a formalizar um sistema de mercado.

No começo da manhã é possível ver no centro de Pyongyang bandas e grupos de meninas uniformizadas com bandeiras vermelhas que entretêm os cidadãos a caminho ao trabalho.

Desde 27 de fevereiro, os norte-coreanos não folgaram nenhum dia e tiveram que fazer horas extras para aumentar a produtividade para o grande Congresso que será realizado no início de maio.

Trata-se da chamada "campanha dos 70 dias" iniciada por Kim Jong-un sob o lema "Triunfaremos", que ocorre em meio a um longo momento de tensão no qual foram impostas duras sanções ao regime devido aos últimos testes nucleares e de mísseis.

"O objetivo é dar peso político ao Congresso. Envolver a população em uma campanha que cria unidade ideológica ao redor do regime com as mudanças que serão adotadas", explicou Chang Yong-seok, pesquisador da Universidade Nacional de Seul.

Na monumental praça de Kim Il-sung de Pyongyang, palco dos grandes desfiles militares do regime, centenas de pessoas ensaiam perfeitamente organizadas todos os dias, de manhã até a noite.

Os preparativos são para uma grande marcha com tochas que ocorrerá na capital durante o Congresso, que gera expectativa por toda a cidade.

No último Congresso, celebrado em 1980, o então líder e fundador da pátria, Kim Il-sung, anunciou que o filho Kim Jong-il o sucederia no poder, o que iniciou a primeira dinastia comunista da história.

Os encontros anteriores serviram, na maioria das vezes, para anunciar novos planos econômicos e iniciativas políticas, além de introduzir mudanças na estrutura do partido.

"Desta vez, o Congresso vai ser focado na economia. A consolidação política e militar são um fato. Agora falta fazer frente à economia do país", revelou um funcionário do Ministério das Relações Exteriores norte-coreano.

Analistas políticos afirmam que o Partido dos Trabalhadores, órgão encarregado de definir as políticas do Estado e um dos dois pilares do regime junto com o Exército Popular, pode aprovar um novo plano de desenvolvimento econômico.

"Dadas as duras condições exteriores, o objetivo será aumentar a produtividade através de medidas como o desenvolvimento tecnológico, uma reforma da educação e novos projetos agrícolas", detalhou Chang, analista do Instituto de Estudos para a Paz e a Unificação.

Outros vão além e acreditam que as medidas pode ser mais revolucionárias, como William Brown, professor de estudos estrangeiros da Universidade de Georgetown em Washington.

"Sendo otimista, poderia se formalizar um legítimo sistema de mercado, mudar a cotação de divisas e atualizar os preços e salários para refletir a realidade do país", comentou o professor ao jornal "Korean Times".

A Coreia do Norte não enfrenta apenas o desafio econômico do isolamento, pela primeira vez um alto número de norte-coreanos conta com poder aquisitivo e inclusive o demonstra de maneira ostentosa. Já se pode falar de uma classe média emergente.

O país vive o que alguns analistas consideram um "capitalismo camuflado" onde surgiram oportunidades econômicas, como novas licenças para negócios vinculados ao governo, inclusive de exportação, e mais autonomia de gestão nos setores industrial e agrícola.

Essas mudanças são evidentes na capital, onde cada vez mais habitantes, e não só as elites políticas, podem comer em pizzarias modernas e restaurantes de comida japonesa, pegar táxis, comprar óculos de sol de última moda e produtos estrangeiros com dólares ou euros.

O Congresso do Partido dos Trabalhadores é realizado em um momento no qual alguns jovens reconhecem, sem dar muita importância, que deixaram de sonhar em ser militares ou funcionários públicos e que preferem ser "empresários".

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