Cingapura e o mito de Confúcio

Alberto Masegosa.

Bangcoc, 30 abr (EFE).- Analistas políticos ocidentais atribuem boa parte do vertiginoso desenvolvimento de Cingapura ao pensamento de Confúcio, importante nos primórdios institucionais, mas que se perdeu atualmente na cidade-estado.

Confucionista confesso, Lee Kuan Yew recorreu às falas do filósofo chinês nascido há mais de 2,5 mil anos quando proclamou em 1965 a independência de Cingapura e sua cisão da Malásia, o que apesar desde cedo explicou para muitos a pujança do novo país.

Em termos econômicos, não há dúvidas sobre o resultado da receita adotada: uma espécie de meritocracia baseada na doutrina confucionista de privilegiar a educação para selecionar os melhores, de modo que assumam as responsabilidades do governo.

Após décadas de grande crescimento anual, a renda per capita dos 5,5 milhões de cingapurenses, a maioria de origem chinesa, é U$ 85.198, atrás apenas dos cidadãos de Luxemburgo e Catar, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Uma frenética atividade comercial e financeira justifica o alto grau de prosperidade, que conta com outro fator. De acordo com o Índice de Percepção da Corrupção, Cingapura era em 2014 o sétimo país menos corrupto do mundo.

"Nos anos 80, os analistas ocidentais buscaram o que tinham em comum cidades e países da Ásia como Cingapura, Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan, para explicar seu rápido crescimento. A resposta foi o confucionismo", lembrou o professor Kenneth Paul Tan.

Para o acadêmico, vice-decano da Escola de Política Pública Lee Kuan Ywe, a adoção dessa percepção foi melhor explorada no caso de Cingapura.

"É certo que, naquela época, o governante Partido de Ação Popular (PAP, criado por Lee Kuan Ywe), colocou em prática ideias confucionistas que foram muito úteis em termos econômicos", admitiu Tan.

O analista político considerou que o paternalismo do Estado - seguindo a premissa confucionista de que o filho sempre deve obedecer ao pai - ajudou a identificar o país com o pensamento do filósofo chinês.

Esse paternalismo estatal se traduz em Cingapura em rigorosas normas de comportamento, entre as quais a proibição de mascar chiclete é a mais conhecida, mas não a mais severa, é uma extrapolação da necessidade de manter a família unida.

Tal princípio, que o pensador considerava pilar do bem-estar, foi questionado neste mês, quando o filho de Lee Kuan Yew e atual governante, Lee Hsien Loong, foi acusado pela a irmã caçula, Lee Wei Ling, de tentar instaurar uma dinastia.

A acusação marcou o primeiro aniversário da morte do pai de ambos e, além da necessidade de preservar a união familiar, questiona a máxima confucionista de valorizar o esforço e o talento acima da origem e da classe social na promoção da pessoa.

Na opinião do subdiretor da organização Human Rights Watch na Ásia, Phil Robertson, o caso do atual governante reflete a degradação do sistema instaurado pelo fundador do país, "onde os que mandam agora não são os melhores, e sim os que têm mais contatos".

"Na época de Lee Kuan Yew eram os melhores que governavam e mandavam, mas o PAP - desde então no poder -, se transformou em uma mera plataforma de ascensão manuseada por medíocres", declarou Robertson.

Esse declive da meritocracia se insere em um modelo de democracia local criticada por desvios autoritários, entre os quais figuram fortes restrições à liberdade de expressão e reunião, assim como punições corporais aos infratores da lei.

Essa conjunção cria um "futuro problemático", na opinião de Robertson, que alegou o atual desapego das novas gerações à meritocracia.

Se o mito confucionista se encontra em decadência na cidade-estado, o mesmo não ocorre na China, cujos últimos líderes, de Deng Xiao Ping ao atual Xi Jinping, se interessaram no modelo de Cingapura como exemplo de desenvolvimento, segundo autores como David Bell.

Apesar da diferente magnitude, Cingapura compartilha com a China o capitalismo econômico e um regime que, na prática, é de partido único: até as eleições de 2015 a oposição não entrou no parlamento, onde o PAP ainda monopoliza 83 das 89 cadeiras.

O interesse pelo exemplo da cidade-estado veio acompanhado na atual China por uma vigorosa reivindicação do pensamento de Confúcio, que na época imperial chegou a ser religião de Estado, mas foi proscrito pelo líder da revolução comunista, Mao Tse-tung.

"Mas do que falamos quando falamos de confucionismo?", se perguntou o professor Tan, que afirmou que "como qualquer filosofia", a do sábio chinês "é passível de interpretações", o que não impede que possa ser seguida como "fonte de inspiração".

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