Direita radical desafia Merkel e rejeita islã como "parte da Alemanha"

Gemma Casadevall.

Stuttgart (Alemanha), 1 mai (EFE).- A direita radical alemã desafiou a chanceler Angela Merkel e os milhões de muçulmanos do país neste domingo, ao proclamar que o islã "não faz parte da Alemanha" e defender a proibição de seus símbolos publicamente.

O islã tem uma "ideologia política" que, em sua versão ortodoxa, é inclusive anticonstitucional, segundo o programa do partido Alternativa pela Alemanha (AfD), aprovado pelo congresso federal realizado neste fim de semana em Stuttgart.

"Um islã ortodoxo, que não respeita a nossa ordem e pretende combatê-la, que quer impor sua religião, não é constitucional", indica a moção aprovada pela maioria dos dois mil delegados da AfD, com o título "O islã não faz parte da Alemanha".

Esse enunciado é uma afronta aos quatro milhões de muçulmanos do país, à linha integradora da grande coalizão de Merkel e também aos dois últimos presidentes - o conservador Christian Wulff e o independente Joachim Gauck -, que discursaram diversas vezes que o islã é parte da Alemanha.

A AfD, formação emergente escorada no voto de protesto contra a chegada de refugiados à Alemanha, demonstrou abertamente seguir pelo caminho islamofóbico, em um congresso recheado por ações hostis de manifestantes esquerdistas e organização caótica.

Os atrasos de sábado devido aos esforços de bloqueio do acesso ao local - com 500 esquerdistas detidos em meio a 1,5 mil manifestantes - foram acompanhados de discussões intermináveis, entre pronunciamentos xenófobos e pedidos de moderação.

O capítulo do islã gerou diversas discussões hoje, depois de no sábado ser apoiada uma moção em defesa da "dissolução ou reforma profunda" da União Europeia (UE).

Esse debate sobre as origens eurocéticas da AfD, fundada em 2013, foi seguido de pronunciamentos que definiam o islã como "pura ideologia política".

A rejeição ao islã foi defendida pela eurodeputada e vice-presidente da AfD Beatrix von Storch, que precisou conter os que eram a favor de proibir a imigração muçulmana.

"Não queiram expulsar todos os muçulmanos", comentou Von Storch, quando a discussão caminhava nesta direção, enquanto a presidente do partido, Frauke Petry, insistia que a AfD prega a "neutralidade religiosa".

"Somos contra o doutrinamento fundamentalista, seja católico ou muçulmano. O problema é que esta influência não se dá, no âmbito cristão, com a mesma força adotada no islã", defendeu Petry.

A líder do partido, que compareceu ao congresso pressionada pela ala radical, se referiu ao suposto controle exercido sobre as aulas de religião na Alemanha por "conselhos islâmicos pagos por (Recep Tayyip) Erdogan", presidente da Turquia, país cuja entrada na União Europeia é totalmente rejeitada pela AfD.

O congresso também apoiou a proibição dos minaretes, da burca e do uso do lenço islâmico nas escolas, considerados símbolos que implicam uma presença pública excessiva da religião.

A AfD retomou suas sessões no domingo sem incidentes, depois das detenções temporárias de esquerdistas que tentaram bloquear os acessos ao recinto onde estavam reunidos no sábado.

Os detidos foram liberados na noite de ontem e hoje houve um novo tumulto nos limites do ato central do 1º de Maio convocado pela Confederação dos Sindicatos Alemães (DGB).

Desde que a presidência da AfD denunciou o que classifica de "assédio político contínuo" sobre o partido, assim como o vazamento dos nomes, sobrenomes e números de telefone dos delegados em um portal de notícias de tendência esquerdista.

O congresso foi marcado por moções repetitivas e debates intermináveis sobre o programa do partido, que o copresidente Jörg Meuthen definiu como representante de um "patriotismo sem complexos" disposto a "apresentar resistência à chegada incontrolada de imigração de outras culturas".

A presença de neonazistas declarados nas fileiras não minaram o potencial eleitoral do partido. Uma pesquisa divulgada neste domingo situou a AfD com 13% dos votos.

Caso as eleições gerais ocorressem agora, a AfD seria a terceira força, atrás dos conservadores de Merkel (33%) e seus parceiros social-democratas (22%), e estaria à frente dos Verdes (12%) e de A Esquerda (9%).

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