Justiça turca condena 2 jornalistas por "revelar segredos de Estado"

Istambul, 6 mai (EFE).- Os jornalistas turcos Can Dündar e Erdem Gül foram condenados nesta sexta-feira a cinco anos de prisão por "revelar segredos de Estado", após um julgamento polêmico que foi acompanhado por várias figuras públicas na Turquia e na Europa.

Dündar, diretor do jornal "Cumhuriyet", foi condenado a cinco anos e dez meses de prisão. Já Gül, chefe da redação de Ancara, capital turca, da mesma publicação, a cinco anos de detenção.

Horas antes da divulgação da decisão, um homem atirou contra Dündar na entrada do tribunal, ferindo levemente o jornalista antes de ser preso pelas autoridades turcas.

Os promotores tinham pedido 25 e 10 anos de reclusão, respectivamente, devido a uma reportagem divulgada em maio do ano passado pelo "Cumhuriyet", que incluía imagens de armas supostamente enviadas pela Turquia à Síria em janeiro de 2014, com escolta de agentes dos serviços secretos turcos.

A acusação, porém, retirou as denúncias de espionagem e tentativa de golpe de Estado contra os jornalistas, crimes pelos quais tinha pedido inicialmente a prisão perpétua de ambos.

A defesa de Dündar e Gül recorrerá da sentença na Suprema Corte da Turquia, porém, enquanto isso, os dois jornalistas serão mantidos na prisão, de acordo com a emissora "CNNTÜRK".

"Hoje enfrentamos duas tentativas de assassinato: um armado e outro judicial", disse Dündar ao saber da decisão do tribunal e em referência ao fato de ter sido baleado horas antes.

Os dois jornalistas passaram três meses em prisão preventiva, após terem sido detidos em novembro, e foram libertados em fevereiro depois de uma decisão do Tribunal Constitucional duramente criticada pelo presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

O líder turco disse na época que não respeitava nem reconhecia a sentença e pediu aos tribunais inferiores que não a acatassem.

"O (Tribunal) Constitucional nos deu razão. Não fizemos outra coisa além de jornalismo, mas topamos com o presidente. Ameaçou, chantageou e há quem compre o caso", disse Dündar.

"Sabemos que o motivo dos disparos de hoje são as ameaças que nos fazem desde a cúpula do governo. Essa condenação não nos intimidará, nem deve intimidar o resto da imprensa", destacou.

Várias autoridades da Europa tinham expressado preocupação sobre o processo judicial, que consideram que viola a liberdade de imprensa. A abertura do caso em março provocou tensões diplomáticas, já que Erdogan acusou vários cônsules europeus presentes na sessão de excederem suas responsabilidades.

O fato de motivou o julgamento ocorreu em janeiro de 2014, quando a polícia turca reteve um caminhão que tinha como destino à Síria. Segundo a matéria publicada pelos dois jornalistas no "Cumhuriyet", o veículo estava repleto de armas.

O caminhão, escoltado por agentes dos serviços secretos turcos, foi autorizado a seguir viagem por ordens do governo, que alega que o veículo transportava "apenas ajuda humanitária".

No entanto, Erdogan chegou a dizer no ano passado: "E se havia armas? Era para ajudar os turcomanos", disse o presidente, em referência a um grupo étnico que vive no norte da Síria e recebe o apoio da Turquia.

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