Dilma torna-se "carta fora do baralho" no pôquer da política brasileira

Eduardo Davis.

Brasília, 12 mai (EFE).- A presidente Dilma Rousseff disse uma vez que se o processo de impeachment fosse aberto, ela se tornaria "carta fora do baralho". Desde esta quinta-feira, na mesa de pôquer da política brasileira, o jogo tem uma rainha a menos.

Dilma ficou fora do carteado após a decisão do Senado de iniciar um julgamento político para sua cassação, o que, segundo a Constituição, a afasta da presidência por até 180 dias, tempo que o processo pode durar.

No entanto, se for absolvida no julgamento político, ela retomaria o poder e recolocaria na vice-presidência Michel Temer, com quem foi do amor ao ódio e que a substituirá nos próximos seis meses ou completará seu mandato se Dilma for definitivamente cassada.

Até poucos anos atrás, Dilma Vana Rousseff era uma tecnocrata com fama de antipática, sem aspirações políticas e uma perfeita desconhecida para a maioria dos brasileiros.

Mas, apadrinhada por Luiz Inácio Lula da Silva, ela chegou à presidência. Eleita duas vezes, a segunda com 54 milhões de votos - número que hoje dificilmente alcançaria, pelo menos segundo as pesquisas que lhe dão somente 10% de popularidade.

Essa queda de seu apoio se deve a uma combinação de severas crises - econômica, política e de corrupção - e foi determinante para tirá-la de um cargo que antes de 2010 não parecia estar em suas ambições.

Dilma nunca tinha se candidatado a um cargo eletivo e enfrentou resistência até dentro do PT, ao qual só se filiou em 2001, mas Lula a escolheu como candidata à presidência para sucedê-lo, fez campanha e a transformou na primeira a mulher a se tornar presidente do país.

Filha de um comunista búlgaro que emigrou para o Brasil e se casou no país, Dilma só ganhou projeção nacional quando em janeiro de 2003 assumiu o ministério de Minas e Energia no primeiro governo Lula.

Depois da crise do mensalão, ela assumiu a Casa Civil, onde conquistou a fama de "Dama de Ferro" por seu rigor e, graças ao influente "dedo" de Lula, se tornou sucessora do líder mais carismático da história recente do país.

Quando assumiu o poder pela primeira vez, em 1º de janeiro de 2011, sua condição de economista animou os mercados, mas, ao contrário do que se esperava, o Brasil de Dilma perdeu o impulso que o tinha transformado na "menina dos olhos" do mundo dos negócios.

Depois de uma década de alto e constante crescimento, o PIB só subiu 2,7% em 2011, 1% em 2012 e se recuperou ligeiramente, crescendo 2,5% em 2013. Já no seu segundo mandato, os números desceram ladeira abaixo até a economia entrar na recessão mais grave das últimas três décadas.

Dilma chegou ao Planalto rígida com a corrupção, punindo toda suspeita em seu entorno, ao ponto de em seus primeiros 12 meses não ter hesitado em demitir sete ministros envolvidos em denúncias.

Em junho de 2013, foi surpreendida pelos maiores protestos da história nacional recente, quando milhões de pessoas tomaram as ruas para protestar contra a má qualidade dos serviços públicos apenas um ano antes de o Brasil sediar a Copa do Mundo.

Desde então, o país entrou em ebulição, e Dilma começou a perder força, embora tenha conseguido se reeleger em 2014 com uma diferença de apenas três pontos, o que já indicava a fratura política da sociedade.

Seu segundo mandato nasceu ferido por um agravamento da crise econômica e pelo esquema de corrupção na Petrobras revelado pela Operação Lava Jato, que manchou quase todos os partidos e desmanchou sua base política.

No último ano, o redemoinho político a encurralou, o que culminou agora com esse julgamento político por manobras fiscais irregulares, as chamadas "pedaladas fiscais", que podem determinar seu impeachment.

Desde que começou o procedimento que hoje a afastou do cargo, Dilma se disse vítima de um "golpe" e que o enfrentará "até o último minuto", assim como fez contra a ditadura militar (1964-1985). Esa foi uma clara referência à sua combatividade na juventude, quando lutou contra a ditadura militar e passou quase três anos na prisão, onde foi severamente torturada.

Um capítulo pouco divulgado de sua história oficial conta que, assim que saiu da prisão, seu primeiro emprego foi na Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, órgão estatal controlado pela própria ditadura que a perseguiu.

Quem a conhece afirma que foi nas celas do regime que ela forjou seu forte caráter, que às vezes dizem que passa do limite da boa educação.

Em Brasília há quem diga que uma vez chegou a jogar um copo na cabeça de um ministro, por sorte sem pontaria, durante uma tensa discussão.

Apesar dessa imagem, Dilma pode ser a avó mais doce quando está com seus dois netos.

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