Temer, da secreta articulação à presidência

Mar Marín.

Rio de Janeiro, 12 mai (EFE).- Frio, calculista e com uma grande experiência política, Michel Temer soube aproveitar o poder que teceu em segredo durante décadas para assumir a presidência do Brasil no lugar de quem um dia foi sua aliada e lhe abriu as portas do Planalto, Dilma Rousseff.

Michel Miguel Elias Temer Lulia, advogado constitucionalista, católico, de uma família de origem libanesa, jogou habilmente suas cartas para ocupar, por enquanto interinamente, a poltrona de Dilma.

Aos 75 anos, o presidente do PMDB tem agora o desafio de acalmar o furacão político que desembocou na abertura do processo de impeachment contra Dilma, manter as alianças que facilitaram sua ascensão ao poder e, sobretudo, reconduzir a economia e recuperar a confiança da sociedade brasileira na desprestigiada classe política.

Temer assume interinamente após ser companheiro de chapa de Dilma em duas eleições, liderar durante 15 anos o PMDB e ocupar três vezes a presidência da Câmara dos Deputados, uma larga experiência política que o permitiu cultivar uma enorme influência nas sombras do poder.

Entre suas atribuições como vice-presidente, como dizia até hoje a página oficial do PMDB, estava "a defesa dos interesses nacionais em fóruns, encontros e negociações internacionais".

Mas Temer, que disse ter se sentido ignorado por Dilma, a quem acusou de não ter permitido a ele nem sequer cumprir as tarefas básicas ligadas à vice-presidência renunciou a articular os vínculos entre o governo e o Congresso e marcou seu distanciamento da presidente com uma polêmica carta que foi o prelúdio da tempestade e que terminou, por até 180 dias, com a presidência de Dilma.

"Sempre tive ciência absoluta da desconfiança da senhora em relação a mim e ao PMDB", queixou-se em dezembro na carta em que acusava Dilma de tratá-lo como um "vice decorativo", "um acessório que só foi chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas".

A ruptura entre eles era quase definitiva. Apoiando-se em um dos políticos brasileiros mais polêmicos e questionados, Eduardo Cunha - presidente da Câmara dos Deputados que está afastado do cargo devido a acusações de desvios e lavagem de dinheiro e de interferir nas investigações contra ele -, Temer terminou de perfilar sua chegada ao poder.

Enquanto no PT era classificado como "traidor", Temer se antecipava ao veredicto do Congresso sobre Dilma, e em uma gravação - supostamente vazada - se proclamava o líder de um governo de unidade e salvação nacional quando o julgamento político estava apenas começando.

Esta não foi a primeira vez que ele atribuiu a si mesmo esse papel. Em agosto, Temer já flertava com essa ideia. "A situação do país é grave. É necessário alguém com capacidade para reunificar o país", disse na época.

Mas, para realizar seu sonho de "salvar" o Brasil, Temer terá que se esquivar antes de uma ameaça de julgamento político que pode acabar com seus planos e foi apresentada por motivos semelhantes aos utilizados para afastar Dilma do poder: assinar decretos de créditos suplementares sem autorização do Congresso e usar recursos de bancos federais em programas do Tesouro, as chamadas "pedaladas fiscais".

Além disso, seu nome aparece nas investigações do Supremo Tribunal Eleitoral (STF) sobre o suposto financiamento ilegal da campanha de 2014, quando Dilma e ele foram reeleitos presidente e vice-presidente.

Temer também foi mencionado em um processo sobre supostos subornos políticos em 2009, exatamente o ano em que foi escolhido o congressista mais influente do país.

Hábil negociador nos bastidores, Temer tinha mantido até agora um perfil público discreto e cultivado uma imagem de homem sério e austero, sempre de terno e impecavelmente penteado, que sempre mediu bem cada uma de suas palavras e que prefere as frases rebuscadas à linguagem coloquial.

Essa imagem valeu ao agora presidente em exercício o apelido de "mordomo de filme de terror" entre seus adversários políticos, o que contrasta com sua paixão pela poesia, que revelou em 2013 com a publicação de "Anônima intimidade".

O livro é uma compilação dos versos que costuma a escrever em guardanapos de papel durante suas viagens, boa parte deles inspirados em sua terceira esposa, Marcela, a atraente ex-miss, 43 anos mais jovem que ele e mãe de seu quinto filho, também chamado Michel, de seis anos.

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