Vietnã realiza eleições parlamentares sem sinais de abertura democrática

Eric San Juan.

Ho Chi Minh (Vietnã), 21 mai (EFE).- O Vietnã realiza neste final de semana eleições legislativas nas quais as expectativas de uma leve abertura democrática foram frustradas pelo veto a candidatos independentes do hegemônico Partido Comunista.

Embora mais de uma centena de candidatos alheios ao partido tenham apresentado candidatura, muitos deles intelectuais críticos ao sistema de partido único, só 11 passaram pelo filtro arbitrário do Comitê Eleitoral para concorrer a uma das 500 vagas na Assembleia Nacional.

"Acreditamos que os 11 candidatos independentes não são na realidade críticos, mas próximos ao partido", disse à Agência Efe em uma cafeteria de Ho Chi Minh (antiga Saigon) a cantora pop Mai Khoi, uma das candidatas vetadas.

Embora o regime de Hanói tenha encorajado há alguns meses a apresentação de candidaturas independentes, os ativistas veem com frustração como quase todas foram rechaçadas.

No papel, a Constituição permite a qualquer vietnamita maior de 21 anos apresentar sua candidatura, mas é o Partido Comunista que decide se a pessoa é adequada ou não.

As candidaturas independentes não são uma novidade (na atual Assembleia, eleita em 2011, há 42 parlamentares não filiados ao Partido Comunista, embora a maioria seja ligada de alguma forma), mas sim o foi o grande número de pedidos apresentados e a presença de ativistas abertamente críticos ao regime.

O rosto mais visível é o de Khoi, conhecida em seu país como a "Lady Gaga do Vietnã" por seus penteados coloridos e sua forma pouco usual de se vestir.

Comprometida com a luta pela democracia, este ano decidiu entrar no mundo da política para "criar consciência sobre os direitos democráticos", considerando que foi rejeitada porque "o governo não gosta de pessoas que representam as preocupações reais dos cidadãos".

A cantora fala com espontaneidade e franqueza sobre sua atividade política, sem medo aparente de possíveis represálias das autoridades, já que considera que cumpre a lei.

"O governo nos encorajou a apresentar candidaturas independentes. Mas suas ações são muito diferentes de suas palavras", comentou decepcionada.

"O Vietnã precisa de mudanças para combater a corrupção e melhorar a economia, e isso só vamos conseguir quando os direitos democráticos forem reais", acrescentou Mai Khoi.

Apesar da decepção, a artista está satisfeita com a atenção despertada na mídia e espera aproveitar a visita oficial de Barack Obama ao Vietnã a partir da próxima segunda-feira para continuar impulsionando as liberdades políticas.

"Foi um sucesso o fato de o povo ter acompanhado com tanta atenção notícias sobre as eleições. Outros ativistas e eu enviamos uma carta a Obama para explicar-lhe nosso caso", disse.

Longe de desanimar, Khoi já pensa em como prosseguir com seu ativismo nas eleições de 2021, nas quais quer mobilizar um milhão de vietnamitas para que apresentem suas candidaturas como independentes.

Enquanto isso, espera que suas canções ajudem a criar uma consciência política nos jovens, em sua maioria pouco interessados por este assunto.

"Se componho canções sobre os problemas da sociedade, os jovens ficarão mais interessados. A música é uma maneira de se comunicar diretamente com sua mente e seu coração", opinou Khoi.

No entanto, envolver-se em política não é fácil, não só pelos impedimentos do governo, mas pela incompreensão provocada em uma sociedade acostumada a ignorar estes assuntos.

Trang Nhung Nguyen, outra candidata vetada pelo comitê eleitoral em Ho Chi Minh, viu seus vizinhos rejeitarem sua candidatura e inclusive denunciá-la às autoridades por uma suposta violação da lei eleitoral.

"A polícia divulgou rumores sobre mim e as pessoas acreditaram", lamentou-se.

Desde que começou seu ativismo político há mais de uma década colaborando com uma revista crítica, esta engenheira de telecomunicações de 35 anos sofreu ameaças anônimas e assegura ter sido perseguida pela polícia quando participava de reuniões com outros ativistas.

Apesar de tudo, Nguyen vê uma crescente conscientização, com gente disposta a ir para as ruas a fim de protestar, como aconteceu recentemente por causa da misteriosa morte de milhões de peixes no litoral do centro do país.

"Acredito que no futuro o Vietnã irá se abrir, o problema é o ritmo. É muito lento", concluiu.

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