Argentina enfrenta desafio da "pobreza zero" com a bandeira da cooperação

Cris Tercero.

Buenos Aires, 29 mai (EFE).- A Argentina de 2016, guiada pelo presidente Mauricio Macri, enfrenta o desafio de alcançar a pobreza zero por meio do "diálogo" e da "colaboração" entre o governo e a sociedade civil para atenuar, entre os mais frágeis, os efeitos da inflação e do aumento das tarifas de serviços públicos.

No meio de uma rachadura política que divide os argentinos, aguçada pelos ajustes nas contas do gás, da luz e do transporte público, e com uma inflação que já chega a 40,5% por ano - segundo dados do IPC da cidade de Buenos Aires que o governo central usa como referência enquanto finaliza seu próprio indicador -, a situação pressiona às camadas mais baixas.

No Ministério Nacional de Desenvolvimento Social, o vice-ministro Gabriel Castelli declarou à Agência Efe que seus esforços se centram em proteger os que têm menos através, por exemplo, da tarifa social.

"Algo que obviamente não se avalia significativamente, mas que tem impacto em uma quantidade gigantesca de pessoas. Só a tarifa elétrica social chega a mais de um milhão de lares", o que para o político minimiza o impacto dos aumentos.

A nova equipe ministerial defende um programa de "proteção social" que cubra "todo o ciclo vital das pessoas" e que esteja "centrado na igualdade de oportunidades", especialmente para combater "os focos de pobreza mais extremos" no norte do país.

Um caminho que começa por "reduzir os níveis de indigência", algo "muito factível" em um país onde há "um excesso de oferta de alimento", considerou.

"Se há situações de indigência alimentícia é porque não pudemos articular, nem como país nem como sociedade, políticas sustentadas no tempo. Não é um assunto econômico, mas de gestão", acrescentou o vice-ministro.

Neste trabalho, o governo espera uma colaboração fluente com a sociedade civil, especialmente com as organizações solidárias, pois entende que só elas podem "complementar fortemente as ações do Estado", assim como este ente deve "facilitar-lhes uma ajuda sustentada no tempo" para assegurar "um horizonte" em suas abordagens.

Na Argentina vivem 13 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, segundo dados do Observatório da Dívida Social Argentina; das quais 1,3 milhão são crianças menores de cinco anos, como reflete um recente estudo do Unicef.

Neste ponto, organizações como Cáritas e Cruz Vermelha têm um papel primordial para ajudar os que mais necessitam.

O Centro Solidário San José é um dos maiores lares da Cáritas em Buenos Aires, uma instituição condicionada graças a uma campanha solidária promovida na Espanha.

O local abriga cerca de 270 jovens do sexo masculino, gênero que representa 95% dos sem-teto; e distribui "cinco toneladas" de alimento semanais entre refeitórios da região.

"Nós nos vemos forçados a trabalhar com mais gente, há mais necessidades porque muitos estão vivendo uma crise", afirmou à Efe Daniel Gassmann, diretor da Cáritas na cidade de Buenos Aires, consciente de que estão em um momento de mudança.

"Não só aumentaram os alimentos como também aumentaram os insumos para poder cozinhar esses alimentos", ressaltou Gassman, que sustenta que estão trabalhando para que se materialize a tarifa social também para instituições que ajudam os demais.

Como exemplo, Gassman contou que a conta de eletricidade passou dos 7.000 pesos (R$ 1.790) para 22.000 pesos (mais de R$ 5.370).

Apesar disso, para Gassmann, "o importante é que o diálogo está aberto" com o governo nacional e que "estão muito dispostos a conversar", algo que veem "com esperança".

Outra entidade de peso, a Cruz Vermelha, também respalda essa ideia de cooperação público-solidária.

"Segue havendo reuniões com os diferentes ministérios para trabalhar nas áreas de competência da Cruz Vermelha" detalhou à Efe María Cecilia Riccio, coordenadora geral da entidade na filial de Saavedra, que há 95 anos presta serviço neste bairro portenho e acompanha o "antes, durante e depois" de uma emergência.

A cada semana visitam bairros humildes como El Mitre onde prestam atendimento a famílias e pessoas dependentes.

"Continuamos fazendo alianças e assinando convênios nas distintas áreas que engloba nosso plano estratégico. Seguimos com muito bom diálogo", destacou.

Atualmente, a Argentina conta com, pelo menos, 100.000 ONGs que trabalham no âmbito nacional para ajudar os mais vulneráveis.

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